
DIÁRIO VIRTUAL atravessar o que nos nega, chegar ao Sim: e é assim que tu verás um S nestes dias cegos VIAGEM A ANDARA oO LIVRO INVISÍVEL VICENTE FRANZ CECIM
11 de maio de 2011
Acesso a Andara em Cultura Pará

12 de abril de 2011
VICENTE FRANZ CECIM, UMA VOZ DA AMAZÔNIA


7 de abril de 2011
Voz sem voz chamando no Escuro

Nebulosa do Cavalo
Somos feitos do mesmo estofo de que são feitos os sonhos. SHAKESPEARE
A vida é sonho e os sonhos sonhos são. CALDERÓN DE LA BARCA
O homem é o sonho de uma sombra. PÍNDARO
sonhou que era uma borboleta, e quando acordou não sabia se era uma borboleta sonhando que era um homem. CHUANG TZU
A Noite Escura. SAN JUAN DE LA CRUZ
Só 4% do Cosmos são feitos de pessoas, planetas, estrelas - e ainda assim tudo rarefeito porque feito de átomos. Os outros 96%, como que envolvendo esses 4% e o sugando para fora, são energia escura - 72% - e matéria escura - 24% - que ninguém sabe o que são.
Os astrônomos criaram um novo método para medir talvez o maior enigma do nosso universo - a energia escura. Esta força misteriosa, descoberta em 1998, está empurrando o nosso universo à parte em velocidades cada vez maiores.
Pela primeira vez, astrônomos usando o Telescópio Espacial Hubble foram capaz de tirar partido de uma lente de aumento gigante no espaço - um grande conjunto de galáxias - para investigar sobre a natureza da energia escura. Seus cálculos, quando combinados com dados de outros métodos, aumentam significativamente a precisão das medições da energia escura.
Os cientistas não são claros sobre o que é a energia escura, mas sabem que é uma grande parte do nosso universo: cerca de 72 por cento.
Outra fatia, cerca de 24 por cento, é matéria escura, misteriosa também na natureza, mas mais fácil de estudar do que a energia escura por causa de sua influência gravitacional na matéria que nós podemos ver.
O resto do universo, apenas 4 por cento, é o material que compõe as pessoas, planetas, estrelas, e tudo feito de átomos.
Cientistas usaram imagens do Hubble para examinar um grande conjunto de galáxias chamado Abell 1689, que atua como uma lente de aumento, ou gravitacional. A gravidade do aglomerado de galáxias por trás dele foi fotografada várias vezes em formas distorcidas, uma espécie de reflexo no espelho como uma casa de maluca, que deforma o rosto.
Usando essas imagens distorcidas, os cientistas foram capazes de descobrir como a luz das mais distantes galáxias ao fundo havia sido curvada pelo conjunto Abel - uma característica que depende da natureza da energia escura.
Seu método também precisa medições terrestres da distância e da velocidade com que as galáxias de fundo está viajando para longe de nós. Esses dados foram usados para quantificar a força da energia escura que está causando o nosso universo de acelerar.
FONTE: HUBBLE/EPÍGRAFES E COMENTÁRIOS: VFC
23 de março de 2011
3 de março de 2011
Sobre o Habitante de Desvios
FRAGMENTO DE ENTREVISTA
de Vicente Franz Cecim a Maria João Cantinho
Há coisas que se dizem por sua própria Etimologia, é assim que elas mais nos falam e não devemos falar mais nada, traduzir por outras palavras, o que elas em si já dizem. São intraduzíveis. Não achas? Apenas quis dizer com isso que aguardo um Tempo em que seja a ‘Palavra praticada como Vida, a Literatura praticada como Ontologia.’ Escrevi isso na apresentação de um livro e em outros lugares por aí. Então, deixemos de lado a conformação verbal ‘onto-introspectivo’. Já temos uma tarefa imensamente Perturbadora de que devemos nos ocupar agora: o Desvio. - Desviar de que, desviar para Onde? Já não estamos no Desvio, já não somos o Desvio humano semeado num Universo que estranhamos, e, por isso, por esse Estranhamento, compreendemos ou julgamos compreender? Contraímos uma familiaridade, por exaustão de convivência, e acabamos por nos empobrecer de estranhamentos. Mas familiarizados, ainda estranhamos, e estranhando a nós mesmos – existe Enigma mais impenetrável do que o homem? – buscamos nos familiarizar com nós mesmos. Vê: uma Árvore já está na Via do seu ser, ela é essa Via. Uma Pedra também. Uma Ave. Mas o Homem, qual é a sua Via? Um Homem é habitante de desvios incessantes. Uma vez ouvi o angélico escavador em espelhos Robert Bresson, citando alguém que não lembro, dizer: ‘- É preciso desviar pelo saber.’ Fiquei pensando: - Mas a qual saber ele se refere? É possível obter um Saber numa vida que se parece tanto um tecido de Sonho, a não ser o Saber que sonhamos e Somos Sonhados – e talvez sonhemos a nós mesmos? Nossa natureza é desviante, não nos é dado um Saber Fixo, jamais – Jamais. Embora seja uma verdade vertiginosa aquilo que Keats vem nos dizer assim: ‘A thing of beauty it’s a joy forever’/’Um vislumbre de beleza é uma alegria para sempre.’ Não sei se isso é uma Condenação ou uma Graça. Só sei que Andara é Busca & Desvio ao mesmo tempo, não são oposições que se negam, antes, se complementam, se complementem, é pelo que espero – e que nela, Andara, tudo se dá buscando no labirinto de um Desvio e se desvia incessantemente no desvio de uma Busca. Não sei porque as coisas são assim. Quando soubermos, se um dia isso acontecer, então fica a interrogação: - Para que mais continuar praticando a Literatura, mesmo como Ontologia, pois já teremos chegado, ou melhor: - Retornado, à pura Ontologia, que de si não se desvia, sob pena de não ser? Ou ela é a mais perfeita forma de Desvio a que estamos destinados? Blanchot? Esse ‘Diálogo Infindo’ de Blanchot eu fui buscar na estante e tenho ele agora aqui comigo. Abro ao Acaso. E, curiosamente, o que acho não são palavras de Blanchot, mas, na epígrafe do livro, estas palavras de Nietzsche: ‘- Isto é uma bela loucura: falar. Com isso, o homem dança em e por cima de todas as coisas.’ Mas em outra epígrafe, ao seu lado, já ouço a voz de Mallarmé resmungando em êxtase: ‘- Esse insensato jogo de escrever.’ A Insensatez é se manter no Desvio, então? Por outro lado, sem Insensatez não há, não haveria Literatura, e nesse sentido é a Insensatez da Literatura que pode nos desviar do Desvio. Ao mesmo tempo que nos confirma nele. – Se recusar à fixidez do Cânone, de qualquer cânone, suspender a linguagem para escutar o vôo inaugural. Voar sempre o primeiro vôo, que todo novo vôo seja sempre o primeiro vôo. Sim, é disso que se trata. No segundo livro visível de Andara, ‘Os animais da terra’, tão antigo, de 1980, no entanto ainda está escrito e isso não mudou com a minha recente ‘transcriação’ dos livros: ‘embora a ave mais bela seja aquela que se recusa a voar.’ Posso encerrar com uma outra frase, esta efetivamente de Blanchot no ‘Diálogo Infindo’? Eis, está na página 41 da minha edição pela Monte Ávila, Venezuela, 1996: - ‘O céu é azul, é azul o céu? A segunda frase não retira nada da primeira, ou é um retirar como um deslizamento, como uma porta que gira em seu eixo silencioso. A palavra ‘é’ não foi retirada: só foi aliviada, feita mais transparente, proposta a uma dimensão nova.’ - Maria, suspeito que é da palavra ‘é’ que a Literatura deve suspeitar sempre, porque a Literatura é no máximo um pequeno espelho colocado diante de um imenso Espelho, certamente um Simulacro da vida vivida, ou Sonhada. E esse ‘é’, é onde: no Onde? Podemos tentar vislumbrá-lo, mas isso já não é viagem linear para a Literatura Canonizada, com suas fronteiras mortas de gêneros, normas, regras, cultos – ao contrário, é um movimento que se atira contra a própria Instituição chamada Cultura – é andasse, andaríamos, é – Se eu andara: é Andara – Tempo da Hipótese, se indo cada vez mais para o abismo ou céu aberto da Pura Escritura e para o Silêncio, sobretudo para o Silêncio, o Advento do Silêncio que há de vir – por ele, espero e não espero – pois a meta sem-meta é permitir que o Vento: o Verbo, mas já sem voz, sopre um dia que talvez nunca virá através das Ruínas das palavras da própria escritura, como atualmente já sopra nas ruínas comoventes da literatura. – Percebemos essa brisa, essa aragem que nos chega do Futuro?
Benedito Nunes: O Sábio Jovial

Um homem sábio e amigo de todos. Assim o escritor Vicente Franz Cecim se referiu a Benedito Nunes após a solenidade na Igreja de Santo Alexandre. “Era um amigo sábio, muito generoso, fiel, alegre, e que nos deixava alegres. Perto dele nos sentíamos como num ninho, abrigados e alimentados. Do centro, onde ele estava, captava os saberes, a luz, o conhecimento, e nos alimentava”. Todos os depoimentos sobre Benedito Nunes destacaram sua simplicidade. Para Vicente Cecim, essa era uma de suas características mais marcantes. “Benedito saiu da vida material como uma criança, mais simples do que quando nasceu. Tinha uma sabedoria autêntica, sem nenhuma vaidade, e nos inspirava amor, gratidão e admiração”. Cecim observou que nem sempre Benedito Nunes conversava sobre “coisas sérias”, por nunca ter separado o saber elevado do saber cotidiano. “Falávamos do saber, da filosofia, da arte, mas também de coisas tolas, do cotidiano, com espontaneidade”. Para o escritor paraense, o filósofo faz agora “um retorno à origem”. “Não vejo a morte como um fechamento, mas uma grande abertura para o cosmos, para o universo. É certo que uma parte fica na Terra, mas cessam todas as limitações que ainda pudessem existir para um homem”.
Vicente Franz Cecim/DIÁRIO DO PARÁ,1/3/2011
1 de fevereiro de 2011
Origem das Ervas
E vês, na Aurora Vermelha, a Pedra Azul nascente
Fonte
do Verão passado onde ainda
uiva o coraçãO
ouve
o EscurO
O long o que se afasta
se semeando em toda parte
Longe
Apenas uma Palavra ao alcance
das mãos
E no entanto estás aqui, sem
Presença
Perdido
na Floresta Luminosa enfim achada dos Teus olhos

6 de janeiro de 2011
- Um novo Dilúvio lavaria todo esse sangue?
Um novo Dilúvio lavaria todo esse sangue? Desta vez, se salvariam só as aves e os peixes: ar por cima, água por baixo. E finalmente se teria a desejada paz na terra aos bichos de boa vontade. Assim, afundando a Arca: a própria Terra, e nós com ela, onde e com que direito ainda haverão homens? A menos que ainda haja tempo, a menos que ainda nos reste uma centelha de lucidez para fazermos uma das duas opções implicitas no aforismo de Lichtenberg, que diz: Estou profundamente convencido de que não apenas nos amamos através uns dos outros, mas também de que nos odiamos através uns dos outros.
Vicente Franz Cecim, Amazônia, Brasil
21 de novembro de 2001
22 de setembro de 2010
Sonhar com sombras
Vicente Franz Cecim
tu
estrela: Ó Longe se não me vês aqui
Não
porque sobre toda a Terra é Noite de dias nunca mais
mas porque para Ti, aí, na Luz
una ao Uno,
ainda não nasci
sonhando sombras
IMAGEM: Terra com a Via Láctea no horizonte
5 de agosto de 2010
Não é a água (O) que se bebe Vicente Franz Cecim
http://www.erratica.com.br/opus/70/index.html
6 de julho de 2010
Fonte dos que dormem/filme vFcecim
28 de junho de 2010
Ian Curtis: Atmosphere
Diálogo Virtual
MSN - RG diz em 26 de junho de 2010 (13:32):
Tenho algumas questões sobre Ó Serdespanto, é um grande livro. Brota do escuro da terra, do silêncio, como todas as grandes obras, e não da luz como acreditavam os iluministas. Fiquei muito feliz e instigado durante a leitura, que tão cedo não tem fim.
MSN - vFc diz (13:35):
É, sem fim - o Espanto do Universo não tem fim - se tivesse, fenecia - seria queimado pois uma Luz, tão plena que clareando todos os recantos, dissolveria o Espanto, a Vida? Por isso: Ó Serdespanto. Por isso toda Andara demanda o Lugar da Penumbra - descobriu que o Claro oculta o Escuro que Oculta o Claro e que a Penumbra acolhe ambos, e nEla se vê tanto no Claro quanto no Escuro. Ou nada. Andara sendo isso, o que mais seria - há o espelho suspeito da Vida que se vela se mostrando. Falaremos mais disso.
MSN - RG diz (13:40):
Para acompanhar a leitura de Ó Serdespanto, estou lendo O Ser e o Nada, Sartre, e Ser e Tempo, Heidegger, estes livros têm me ajudado bastante. Tu poderias indicar mais algumas leituras que possam me conduzir ao Escuro da Semente?
MSN - vFc diz (13:43):
Tu mesmo, em ti: faz Pausas - cai em Vazios - perde tudo durante uma duração - te imerge todo no Todo, onde já estás, aliás - vê os Vários no Um - percebe que és pequeno um no Um grande e um dos vários no Varios. Isso. Os livros podem ou} desvelar ou} velar ou} dar apenas um primeiro impulso e deixar o Ser sozinho com a sua semente de não-Ser.
Mas se queres outras companhias humanas seguras, complementares, busca Parmênides e Heráclito e te situa bem no Centro do que apenas parece dividir o Ser Imóvel de Parmênides e o Ser Móvel do Heráclito
Mas se encostar numa Árvore ou ficar olhando as Estrelas enquanto o Tempo passa, pode agir mais Repousando mais dentro de ti.
23 de junho de 2010
Ao Ser em sua Clareira
. À divindade agrada o jogo de criar, a criatura é o seu gosto de brincar, diz Angelus Silesius. Está em Silencioso como o Paraíso, livro de Andara.
. Assim, também. A vida vivida é real, mas a vida escrita não é real.
. Para que serve então a vida-escrita?
. - É um instrumento, para ver, tentar abrir, dobra a dobra,
. insistindo
. a vida real
. E por que alguém escreve?
. Para isso, o que foi dito acima, tentar abrir, dobra a dobra, insistindo
Fragmento de: Ó Serdespento/Viagem a Andara oO livro invisível/Vicente Franz Cecim
18 de junho de 2010
VISÕES DE ANDARA: Valério Fiel da Costa
Sobre esta peça: concepção, ensaios e apresentação
ENSAIOS
Parte do ensaio fotográfico realizado por Gabriela Canale em Paranapiacaba (SP) durante as filmagens de "Prólogo de Susto": parte filmográfica da performance "Visões de Andara":




VISÕES DE ANDARA
Valério Fiel da Costa e Gabriela Canale
Uma obra musical baseada no universo onírico do escritor paraense Vicente Franz Cecim sempre esteve nos meus planos desde 2004, quando, pela primeira vez, li um de seus livros. Nessa época fui apresentado a diversos autores da literatura paraense (Haroldo Maranhão, Dalcídio Jurandir, Paulo Plínio Abreu, Maria Lucia de Medeiros, Mario Faustino, Max Martins, etc), por amigos críticos literários de Belém. Apesar de paraense, nunca tinha prestado muita atenção à literatura do Pará e fiquei francamente impressionado com a sua qualidade técnica e riqueza criativa.
Vicente me foi apresentado nesta época e logo ficamos amigos. Li seus livros: A Asa e a Serpente, Animais da Terra, Os Jardins e a Noite, Terra da sombra e do Não, Diante de ti só verás o Atlântico, Ó Serdespanto, etc. Identifiquei-me imediatamente com sua escritura, com seu jeito de falar sobre qualquer coisa e em como isso se refletia naquilo que escrevia.
Cecim se ocupa desde fins dos anos 70 com a materialização (o desvelar) de uma série de livros: os livros invisíveis de Andara, a região onírica que às vezes é identificada pelo autor com uma “Amazônia transfigurada”, de onde surgiram diversos personagens-gestos cuja articulação com o espaço e com o tempo sofre o impacto de uma imaginação à deriva para a qual tudo ou nada pode acontecer. Cecim escreve como quem declama e o ritmo daquilo que se fixa ao papel geralmente está expresso no modo como os itens são dispostos na página. Se é necessário refletir sobre algo dito, há silêncio: silêncio como medida da importância das coisas; um raciocínio, porém, geralmente se completa sem interrupções formais, o que gera em sua continuidade acentos mais ou menos salientes. Na verdade não é a importância semântica de tais eventos que determinam seu peso no contexto e sim a mera ocasião de fixá-los: tem-se muito ou pouco a falar sobre determinado assunto, fala-se, cala-se, segue-se. Acontecimentos semi-autônomos que, no entanto, desempenham de forma eficaz sua função de levar a estória adiante. Uma estória em quadros em sequência que poderia muito bem serem permutados ao acaso e continuar funcionando como nexo de algo, mas isso se deve mais ao fato de serem parte de um mesmo fôlego, do que estarem implicados num minucioso projeto subliminar. Graças a isso não há em sua escritura a figura do clímax, pelo menos não como objetivo da trama: às vezes o narrador pode desistir de continuar, pode optar por dois finais alternativos, pode mudar de assunto, pode concentrar-se num momento especial e depois não fazer mais menção a este, pode deter-se longamente num objeto sem importância, pode interromper a narrativa para falar ao leitor em segunda pessoa, pode expressar no papel, inclusive, suas dúvidas a respeito do que virá ou deveria vir em seguida, como alguém que fala sozinho pelas ruas.
Cecim, logo na nossa primeira conversa, mostrou-se um entusiasta das idéias de John Cage. Ele soube que o compositor estadunidense vinha sendo um objeto de pesquisa frequente graças ao meu interesse por preparação de pianos, uso de operações de acaso e de aspectos de cessão de decisões aos intérpretes de minhas músicas. Se faz música, Cecim improvisa em transe; se faz cinema, deixa a câmera a filmar ao acaso e depois acrescenta algum detalhe. Isso me revelou, claro, muito de sua metodologia de escritura e me aproximou de suas coisas Por outro lado o que me aproxima de Cage é diverso, uma vez que seus procedimentos de acaso visam muito mais garantias de resultado do que a tão badalada deriva que proclama em seus textos. Minha poética está tomada por ímpetos desse tipo: o equilíbrio entre aquilo que se deixa levar e aquilo que precisa ficar como está. E todo um aparato técnico se faz necessário para que isso cumpra seus objetivos... tal qual ocorre em Cage, porém de forma mais ou menos dissimulada (mas isso é assunto para outra – longa – conversa).
Em “Visões de Andara” optei por usar como mote a sensação que me vem ao ler seus contos: estou em Andara, sofro seu impacto, mas, ao mesmo tempo, não consigo apreendê-la completamente em termos de contornos. As coisas acontecem e estamos dentro delas como num veículo à deriva: vozes soam, coisas surgem, ventos sopram, personagens vem e vão, mudam de nome, se perdem na bruma, morrem e renascem, são esquecidos, estão em todos os lugares, falam contigo e/ou te ignoram. Paira no ar um clima de mistério, de onirismo, que te envolve completamente. É bastante provável que aquelas figuras e situações sejam mesmo fruto de uns tantos sonhos do autor. O que é fantástico é que Cecim consegue transferir, para aquilo que escreve, aquele ‘lugar’ do sonho onde estamos sempre em perigo, onde, a qualquer momento, pode surgir uma fera que te devore.
A peça está dividida, não em movimentos, mas em camadas. São 3 ‘sets’ instrumentais: sintetizador + sons gravados; guitarra + sons gravados e objetos amplificados + sons gravados, tocados simultaneamente, sendo que cada um possui grande autonomia, no que diz respeito às suas regras internas, em relacão aos outros. Como cada set se encontra distanciado dos outros 2 no espaço de performance, e como suas informações sonoras são exclusivas, o ponto de fruição de cada ouvinte no espaço determina o que irá ouvir (que estória vai ouvir) de forma predominante. Ao mesmo tempo, o ambiente está saturado de informações sonoras dos outros sets gerando uma aura sonora dentro da qual ele se encontra imerso.
Tal qual os momentos de Andara, meus momentos são re-combináveis (a lá Stockhausen). De fato não segui um sequência linear para compô-los: escolhi para cada set um personagem, dividí-o em 6 aspectos relevantes e defini uma sequência de acordo com razões musicais. Cada aspecto é articulado por um ímpeto definido que vai do absolutamente suave e mântrico até o mais agressivo e mesmo violento. Quanto mais suave o módulo, mais material melódico usa e mais tempo para desenvolvê-lo o intérprete tem; quanto mais agressivo o módulo, menos notas e menos tempo para desenvolver. Esse foi o critério. Temos portanto uma sobreposição de ímpetos, referentes a cada personagem dentro de sua estória, deslocados no espaço e embaralhados no tempo.
Para garantir uma coerência geral (para que não saiamos do “espaço” delimitado), uso apenas uma escala diminuta: dó, ré, mi bemol, fá, sol bemol, lá bemol, lá e sí, para todos os sets. Os mesmos sons e combinações sonoras flutuando no ambiente durante 30 minutos.
Os personagens escolhidos foram 1) Caminá (Animais da Terra), a mulher alada que mora com Jacinto numa plantação de urtigas e que, presa a uma cadeira, sofre a cópula da floresta gerando um deus vermelho: set de copos de cristal, copos de vidro e superfície atritante que toco e que está posicionada no fundo da cena; 2) Nazareno (A Asa e a Serpente), o ressuscitado que retorna com seu caixão, se instala numa calçada em Santa Maria do Grão e é responsável por uma catástrofe miltar: set de sintetizador (Henrique Iwao), posicionado à esquerda e avançado (noroeste-leste) em relação ao público; 3) Rebanho (Diante de ti só Verás o Atlântico), o grupo não identificável de seres que, pastorados por Josiel/Sião Diadoné/Inácio Verena/Josiel, buscam fugir à enchente atingindo a ilha da salvação: guitarra (Mário Del Nunzio), posicionado à direita recuado (sudeste-oeste).
Para completar a cena, convidei a excelente artista visual Gabriela Canale para criar um cenário, figurinos e projeções cujo objetivo seria o de completar a imersão em Andara. Deixo que ela fale sobre o seu processo criativo dentro do projeto...
MAIS DO QUE NARRAR PERSONAGENS, PERCEBER UM ETHOS
Gabriela Canale
O que mais me interessa neste projeto é a possibilidade de propôr uma existência visual para a linguagem singularíssima de Cecim que equilibra poesia, fábula e romance. Para tanto criei uma obra audiovisual imersiva, um espaço em que os visitantes adentram o realismo fantástico de Andara - o mundo de fábula e letargia - através da porta da metalinguagem (como um aviso, um alerta de que se separa a ficção do real).
As imagens projetadas em duas telas propõem uma experiência sensorial que revela o ethos de imaginação, sonho e memória de Cecim que é apresentado em camadas que se descortinam lentamente para complementar as composições do Valério.
As sobreposições seguem livremente os acontecimentos do “prólogo de susto” de Ó Serdespanto (2006). As imagens são definidas por alguém que espreita o mundo de sabedorias vegetais. A proposta é criar um espaço imersivo, uma ambiência Andara. Este lugar se apresenta espacialmente como um lugar de Morpheu, em que a matéria vegetal, natural, literária e humana se presentificam com uma lógica outra, como num sonho mesmo, em um mundo de susto e descobrimento infantil em um mundo fabular, como a àrvore que conta aos três homens no prólogo de Ó Serdespanto. No nosso caso, os homens são os três músicos, que contam a fábula aos visitantes.
LINK PARA ENSAIO
http://www.ibrasotope.com.br/conexoes/pecas/peca/6/concepcao
10 de junho de 2010
Visões de Andara por Valério Fiel da Costa
Sobre esta peça: concepção, ensaios e apresentação
Vicente Franz Cecim refere-se às suas publicações como parte do livro visível de Andara dando a entender que há ainda muitos, talvez infinitos, livros invisíveis a serem revelados. O autor operaria como um receptáculo de informações oriundas deste universo paralelo que poderia ser entendido, segundo o próprio autor, como uma Amazônia transfigurada em região-metáfora da vida em que o sobrenatural emerge em epifania. Dentro dessa região fantasma que é Andara, proliferam entidades-personagens curiosos como o Cego Dias (Os Jardins e a Noite – 1981) que passa a ver-ouvir as mensagens do vento depois de ser cegado pelo misterioso pássaro Curau ou como a desejada Caminá (Animais da Terra – 1980) ser alado vinculado a uma plantação de urtigas cuja cópula com a natureza faz nascer um deus vermelho. É a partir do dado dessa translúcida invisibilidade de onde emergem tais seres-situações visíveis de Andara que pretende-se operar na atual proposta de obra.
Visões de Andara: A idéia poética desta cena musical é a de criar um ambiente de imersão que represente não uma sequência de eventos de Andara, mas que possa transferir o ouvinte ao seus domínios fazendo-o experimentar o processo de emergência de situações mais ou menos palpável dentro de tal contexto. É como se o ouvinte estivesse dentro de um barco à deriva onde, a partir de determinado momento, toda a expectativa a respeito do que virá em seguida é esvaziada sendo o mesmo impelido a fundir-se ao contexto sonoro-visual entendido agora como dado concreto e inescapável. É dentro de tal transe que ocorrerão os eventos significativos que transportarão o ouvinte para as entranhas de Andara: sons característicos, imagens projetadas sobre o espaço, sons gravados, textos, que surgem aos balbucios, configurando-se aos poucos como coisa inteligível, até conseguirmos ver a região metáfora com os nossos próprios (novos) olhos. O livro de Andara tornando-se visível diante de nós.
Valério Fiel da Costa nasceu em Belterra, Pará, Amazônia. Doutor em composição pela Unicamp, fundador do grupo Artesanato Furioso. Representante brasileiro na Tribuna Internacional de Música Eletroacústica da Unesco. Professor de composição da UFPB.
LINK http://www.ibrasotope.com.br/conexoes/pecas/peca/6/concepcao
31 de maio de 2010
25 de maio de 2010
Barroco Infinito

O movimento de um corpo não engendra um corpo, mas uma sombra. A propagação de um som não engendra um som, mas um eco. A ação de um inexistente não engendra um inexistente, mas um existente
Lié Tsé
Tratado do Vazio Perfeito
China, Século IX AC
Já é tempo do Pensamento, por sua vocação à autoSufocação, e cada vez mais asfixiado pelo Conhecimento acumulado e amestrado pela Cultura, deixar livre, de uma vez por todas, as Obras de Criação. Para a Arte livremente se deixar penetrar por visitantes não especializados, e a Maneira desse Encontro se tornar uma mais Íntima convivência.
Se sabe: aquilo que a Razão conhece, ela afasta de si, exila como Outro. Nasce o Eu & Tu, que não é sequer nós. Plotino e o Zen nos ensinam isso.
A Razão é sempre igual a si: um Mesmo que a tudo exclui.
Não é o acesso natural à Obra, que tem a vocação oposta da autoDoação.
A Razão ergue sua Muralha duplamente, uma delas diante de si mesma.
A outra: tendo se apossado da Obra, aprisionada em suas tramas lógicas retas e lineares – ó aranha calculista, com Face humana e Dedos antiHumanos – com a Autoridade autoJustificada que se consente, volta essa Muralha, resistente embora em Ruínas, contra o visitante desprevenido.
E assim é possível permanecer imobilizado diante de uma Obra de Arte do nascimento à morte, sem Nela jamais penetrar.
Como o paciente Homem Inocente de Kafka diante da Porta da Lei.
Morri pela Beleza, diz o Poema de Emily Dickinson, quando alguém que morrera pela Verdade foi depositado na terra ao meu lado.
Esse Diálogo que se aspira sem fim, até que silêncio e limo venham cobrir nossos lábios, é o Risco do artista que se quer livre para poder gerar obras livres.
Seu Legado Libertário.

É este o Acesso que buscamos para o Barroco Infinito, encenado & exposto por Armando Sobral.
Mas na própria Obra esse acesso se evidencia, logo em sua entrada, à direita, por um Manto pendente vazio de Corpo em suas dobras.
Para onde foi esse Corpo Nu que estava aqui, ou nunca esteve, e de qualquer modo se despiu? Está em todo o Ar do Espaço da exposição, confundido com as Sombras que os Objetos dela projetam, fundido com as Luzes que os iluminam.
Manto Barroco. Sem dúvida: suas dobras provêm da evocação de algum Santo de remotas catedrais.
Deixemos esses panos abandonados e sigamos os rastros invisíveis no Ar, do Corpo Nu, que penetrou, antes de nós, na própria Obra de que faz parte, e nela nos espera.
Já se percebeu que o convite deste Corpo sem corpo não é convite a uma mera visitação impessoal, neutra, a este espaço habitado por coisas. E ainda que fosse, não pode ser. Porque também nos sugam e fazem penetrar nesse ambiente as tábuas do assoalho, de um outro jogo de Xadrez, em preto e branco, linear, paralelo, que mergulham obra Adentro e sob os nossos pés.
E ao primeiro passo, todo o chão como que se inclina para uma Perspectiva que se estreita como Via para o Sem Fim – revelando e alegrando as limitações gloriosas do olhar humano: Farsa que lhe permite ver além de si, ver o que não o vê, íntima aliada dos olhos quando fechados sonham.
Se seduzido por essa promessa de Infinito lá no fim, que na verdade é uma parede, mas não o Muro da Razão, a poucos passos – mas isso para o Viajante da Miragem já pouca importa – o visitante penetra nesse Espaço, Barroco – mas inesperadamente despido de Espessuras e Convivências Amontoadas,
Porque aqui, este Barroco do Século XXI, todo flutua com uma despojada Leveza, seus Enigmas são fluídicos, e penetramos em um Claro Labirinto.
Onde o nosso próprio corpo se tornou leve e flui, entre Luzes & Sombras, como Ícaro experimentando a Leveza do Ar antes da Queda.
Curiosa Vivência: uma vez Dentro deste Barroco Infinito, nele Imersos, somos ao mesmo tempo Presença & Ausência.
Mérito de sua Tenuidade.
Visitantes assim também visitados.
Já não mais os antigos visitantes das Sés e sua Densidade Porosa,
seus Rostos de Pedra que nos vêem sem ver passar, sem participar da nossa cotidianidade.
Nos objetivamos na intimidade dos seus Objetos sem rostos, vagando por entre eles e os vazios que em seus intervalos nos concedem, lançados aqui e ali: Objetos ofertórios, dádivas contidas, erguidas espiritualmente em oferenda acima de patas, altares de sacrifícios, e também suas bases que não são mais grandiosos pilares mas quase móveis domésticos do dia a dia.
Enquanto eles, esses Objetos, por sua se subjetivam em nós.
E nessa Intimidade, ontologicamente Nós & Eles fenomenologicamente, nos celebramos, celebramos o nosso Encontro.
O Espaço, onde costumavam se encontrar superficialmente Homens & Coisas se converteu num Abismo, onde uns nos outros nos resvalamos, e onde realizados o que parecia impossível: nos tornamos Parentes.
É possível ouvir Murmúrios no Ar silencioso. Porque aqui tudo reina em Presenças & Ausências.
Presença pela Imersão do humano: porque estamos Dentro da Obra. A Vivendo.
Ausência porque, estando Nela, também estamos Fora e Diante dEla. A Contemplando.
Como os espreitadores do Decorrer do Tempo e da Fugacidade ante a imobilidade de um Jardim Zen.
Eis: um Ideal, que toda Obra de Arte devesse nos ofertar: sermos, no Uno que sempre somos, dois: aquele que a Vive & aquele que a Testemunha. No mesmo tempoespaço.
Lembremos:
Um Manto nos deu acesso, no rastro de um Corpo. Nu dele libertado. Nosso Guia.
E aonde nós nos levamos – Homem, Vivenciador, Testemunha – através desses Ares, desse Espaço Vazio cheio de objetos rarefeitamente nele semeados?
Esses Objetos que por sua nos Testemunham & conosco Convivem?
Deslizando pelas tábuas – um pé pisando madeira escura, o outro pisando madeira clara – em direção à parede do Fundo e à Promessa de Infinito com que a falsidade da Perspectiva nos alegra os olhos exaustos de ver o Visível Tangível,
e indo em demanda do Corpo oniausente que se livrou do Manto Inicial,
então,
toda a Presença da Matéria nos desvia para a esquerda, na forma de um Coração Vermelho,

que cravado na parede lateral – aberto Clarão de Sangue – nos recupera para o Barroso arcaico, aquele das Catedrais,
dos Santos Sangrantes,
e sua Mística Medieval, ocidental, cristã.
Recupera?
Também na porta de saída da Obra, como em sua entrada, já não há guardiões.
E somos homens livres,
e dali saímos acompanhados por objetos livres
Que bela Procissão de Sonhos: Homem & Coisa se dirigem, após a Travessia deste Barroco Infinito, enlevecido, à Origem como a tudo que, no Todo,
É & Não é
Assim: - Menos Mais sendo
Vicente Franz Cecim é autor de Viagem a Andara oO livro invisível, dos filmes KinemAndara e das MusikAndara.



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