6 de dezembro de 2008

K O escuro da semente Vicente Franz Cecim























FRAGMENTO DO LIVRO (K O escuro da semente Vicente Franz Cecim - Ver o Verso, Lisboa, 2005)







voz vermelha


a sempre,

e perguntando?
Voltaste para o Alfabeto Humano, ó k

Voltaste ao tempo em que os homens ainda falavam? Ouvimos essa voz vermelha? Ó, k
A voz Neblina, a humana, sempre contando a um outro homem histórias

E diz-se disso: literatura
ó k. Um sopro de voz, passando, como passou nos animais um dia



#



Da voz de Areia Lenta

À noite,
aquele Clarão claro-escuro no céu
agora um outro clarão viesse iluminar Oniro, que entendia sob as asas negras brancas seus círculos

- E sabes o que ele entendia, perguntava o homem que contava ao outro o mudo
que junto ao fogo, crepitante ouvia

Entendia que

Contra as suas palavras, ah

essas pedras de sons que lançava doando
suas lições sobre os alimentos do ser, um outro mal se exercia.
E que mal era esse? Tu sabes?

Eram outras palavras
Quais?
Então não sabes
As Outras, oh
que criando o vento: o Vento e aquelas asas negras, brancas eram outras pedras
erguessem a Muralha de outras palavras pedras sons contra as palavras dele

não queres a pedrinha branca, ó k

E seria nessa noite e sob aquele céu de asas negras brancas que ele, Oniro, fosse se levantando da terra onde caído,

e então diria:

- Vê, Orino,
isso: Isso, que eu agora entendi: essas asas, negras, brancas,
seus Círculos brancos negros
não existem. Eles são só uma invenção desse Vicente que nos escreve,
só que elas ele escrevendo com asas de palavras,
e nós ainda inventando com palavras de carne,
ah as pesadas as humanas, e nelas uns ossos vazios por onde ele sopra os seus sonhos
- Não existem, mas existem. Como te dizer isso?
Escuta.
E vem comigo

- É que esse Vicente,
vindo de um vale onde nasceu, é lá embaixo da vida,
o que ele quer o que mais quer é ascender, alado, e, leve, abandonar o Vários por maior Amizade ao Um.
Pois já não houve um outro, um tal K que
Diz-se
antes dele já ascendeu deixando aqui embaixo o Alfabeto Humano?
Ou essa é só mais uma das suas histórias
Esses livros que ele escreve
Então, todos os seus livros sendo atravessados por asas,
para ele um lugar não lugar Andara e todos os lugares sendo para ele uma grande Asa, com a qual ele sonhando isso do Visível ao Invisível,
ele faz essa viagem, e já bem longa.
Isso de andar sem ir ficando indo fosse
Pois em Andara, tudo está no Vale, embaixo,
e quer ir para a Montanha, lá no alto.
Tudo

- Vê, Orino,
sendo fantasmas de Andara,
nessa Neblina
nós também podendo viajar por Andara inteira, indo através dos livros que esse Vicente escreve,
como estamos indo agora através das páginas deste livro que ele escreve,

e estão, vem comigo, façamos isso

- Mas tu, não, dizendo Oniro ao omem de areia. Não vá se desfazer nos grãos das palavras desse Vicente o que ainda resta do teu Grão de Ser

Vem,
e vê Orino.
Como parecem se elevar tão altos os seus livros
À Sombra deles, ah suas sombras assim tão longas e íntimas das sombras longe lá do horizonte
as nossas sombrazinhas de Neblina humana

A asa e a serpente.
Lês, o título?
Dos livros assim visíveis de Andara
este é o primeiro. E vês o que eu te disse? A serpente: o Vale, a asa: a Montanha. E tudo terminando por uma chuva de asas e serpentes sobre a terra,
sobre os homens
Vem, vê. Entremos também neste
É Os animais da terra. Aqui, repara,
aparentemente tudo se dá só no Vale, mas não é o que acontece, porque o sonho da Montanha vês ele
nos vôos de Caminá? A mulher alada
Este outro é Os jardins e a noite. O Vale está nos olhos que antes um homem tinha para não ver nada, nada sob o sol, e a Montanha nasce da Noite em que uma ave, a imensa,
o Curau,
desce do céu e tira os olhos desse homem
e ele então começa a ver, é bem longe, e também dentro de si, a vida
Este é Terra da sombra e do não.
Entremos
Nele, uma criança atravessa o Vale: a vida, levada por dois outros fantasmas como nós, um querendo ser leve, o outro, pesando sobre a terra,
e no final surgem umas borboletas, vês: elas, lá? Umas cintilações no ar, que voando diante da criança a levam até a Montanha, que é um montinho de nada de terra onde um morto dorme e não dorme pois não sabemos se ele ainda está lá ou já se ergueu de si
Este é Diante de ti só verás o Atlântico.
Nele, o Vale será submerso
mas não recues teus pés,
ainda não será agora, neste início, Orino,
só mais tarde quando eles ouvirem a música mineral na distância, as altas ondas do Atlântico
e então a vida será submersa
por uma Água Negra que estará vindo, por trás,
e para escapar a ela aquele homenzinho de neblina, ali, vês, precisará atravessar a floresta Andara inteira levando o seu rebanho de coisas vivas e atingir uma ilha de sonho nas água de sonho do Atlântico, e a Ilha, que se erguerá, ou não, do oceano, será a Montanha
Este é O sereno. Aqui, o Vale é uma praia à tarde sob a lua branca, a que nos alucina de olhos abertos, e depois sob a lua amarela, a que nas noites nos alucina de olhos fechados, onde uns homens bebem bebida amarga e falam da ave, diz-se, que voa dentro de nós, essa Ave sendo a promessa da Montanha que um dia atingiremos, ou não
Este é aquele livro que antes se chamou As armas submersas, mas quis se chamar Música de areia.
E onde estariam elas, essas armas, submersas? Onde mais senão no Vale das coisas veladas que precisamos desvelar se quisermos ir para o alto, subir a Montanha, e não apenas continuar nos arrastando pela vida, e assim umas outras serpentes, humanas
Este aqui, ah,
este aqui é o oitavo, o nono, o décimo e o décimo primeiro livro dessa viagem que ele faz a Andara,
e nele podes entrar pela frente ou por trás, como podes ver girando a redor dele, pois é um Livro que tem duas entradas,
mas nenhuma saída e por isso é melhor que não entres
e te baste saber que seu nome é Silencioso como o Paraíso, como podes ler de fora, na capa
e também te contentes em saber por mim o que ele contém.
Contém dois livros que se chamam, um, Contando estas histórias para nada, o outro, Contando estas histórias pra ninguém.
Esses títulos assim, pois esse Vicente aí mais parecendo um animal fugindo da Literatura, embora ainda não se sabendo para onde
ele.
Neste, são muitas as histórias que ele conta
A de um alado, que vindo da Montanha que é o céu paira sobre um Vale e os homens
A de um adormecido numa praia, o Vale, sob um céu, a Montanha, onde flutua uma Ave sem uma das asas
A de um anjo que desceu da Montanha do céu para o Vale onde vivia um homem, para lhe dar asas, mas traído pelo homem, que virou anjo, e subiu para o céu em seu lugar, ficando o anjo reduzido a homem pesando nesta terra onde somos só homenzinhos já nem mais de terra, só neblinas de carne de terra
A do animal solitário da ilha, que habita a areia de sermos aqui embaixo, o Vale, e só tem por companhia o Osso Pai e a Areia, e sonha com asas que um dia o levarão à Ilha dos Imortais, à Montanha, por sobre as águas
A de Mirá, ah, um mirazinho de nada que teme os areais e quer porque quer subir para o céu
São muitas as histórias. E em todas há o Vale e a Montanha,
mesmo que velados, só semi-revelados a nós
Ou apenas o Vale se mostre, sendo a Montanha só entrevista pela sua Ausência
Ou só a Montanha se mostre, sendo ele, o Vale, só entrevisto por sua ausência
Ah
tem esta outra aqui, e estas páginas apenas entreabro para te mostrar,
mas não entres no Livro, não entres, espia daqui: não há saída
É a história do Homem com estrela no ombro, que chega numa casa à noite na floresta Andara,
e ela A Luminosa lança sobre tudo que está nas sombras o seu clarão imenso que adormece. Não se vê o Vale nas sombras em que eles estão, antes da estrela? E não é a estrela a promessa, ou ameaça, da Montanha?
São muitas as histórias desses livros assim contando suas histórias para nada e ninguém.
E além dessas histórias, aqui, neste livro com duas entradas e nenhuma saída, há ainda outros livros de Andara
Um que se chamou Diálogo dos comediantes, mas quis se chamar Festa dos cabelos trançados
e outro que se chamou Silencioso como o Paraíso após a expulsão das criaturas humanas, mas queria mesmo era se chamar Silencioso como o Paraíso após o rumor das sombras humanas.
Sentemos à sombra que essa nova estrela que gira lá no alto faz para nós,
à sombra desse Livro com duas entradas e nenhuma saída onde não devemos entrar,
e nem precisamos, vês, pois um vento já está virando suas páginas para nós,
e me escuta, Orino.
Fiquemos lendo daqui
No primeiro deles, um homem, na floresta Andara: no Vale, tendo visto uma festa em sonhos, A festa dos cabelos trançados, convida um outro a ir com ele em busca dessa festa, e se arrastam, animais, pela floresta inteira: o Vale, sob estrelas ocultas, pois essas estrelas só na última página se acendem cintilantes no céu: a Montanha: a loucura brilhante de estar vivo e isso pairando sobre nós
O outro é a história de Iziel, que aqui embaixo, no Vale, convida Azael a seguir uma constelação, a Montanha, que vêem no céu à noite, mas só quando o dia nascer e quando ela estiver invisível sob o sol que nos oculta a vida
Agora vê, Orino,
esses livros livros todos de Andara por que passamos, até aqui, esses livros visíveis,
tu assim podes ver,
mas não o Livro Invisível
que ele, esse Vicente sem asas que quer ser alado, mas é só um homenzinho de nada se arrastando pelo Vale pesando sob as asas das aves e sob a Asa Asa,
diz que escreve, mas sem palavras:
não-livro: livro fantasma:
o livro fantasma que é Viagem a Andara, o livro invisível,
esse livro que ele não escreve com as sombras das palavras sombras no papel e se alimenta desses livros livros
que ele visivelmente escreve
para existir não existindo Livro

Não vês aí, Orino: nós: oos
Apenas as letras dos nossos nomes estando trocadas
Não vês aí nesses livros diante de nós,
assim presentes,
e no Livro Ausente
o não-escrito
se reproduzindo o Vários no Um no Vários
nisso que ele, esse Vicente, chama

Viagem a Andara?

Quisesse com esses livros e não-livro
ele também nos dizer com palavras ora aSas ora serpenteS e sem palavras, as não dizíveis
ora lançando ora não lançando pedras palavras sombras sobre nós,
o mesmo que eu te digo?

- Tudo vem como sombra do Um e para o Um volta como sombra
Aqui, na breve Residência, a vida,
imersos nesta luz cheia de penumbras em que somos e não-somos, pois permanecemos sendo lá no Um enquanto aqui até parece que somos,
as sombras estão no Vários,
e se tornam coisas

O que eu já te disse?


Eu te daria a pedrinha branca, ó k, onde escrito o Nome que Ninguém conhece


Vê agora este outro livro livro, Orino:
é Ó Serdespanto
E este outro: Música do sangue das estrelas
O Vale e a Montanha sendo,
num, um ser sem asas e um ser alado, a Irmã de Plumas desse Serdespanto,
e, no outro, o Vale e a Montanha
estando num homem que vive só na floresta Andara e em um anjo ou homem, o escravo, o amigo, que vindo, distraído, esse homem prende numa gaiola: a Gaiola, por companhia, até às cinzas da gaiola, e até cair do céu uma outra chuva: a música do sangue das estrelas. Que um dia outros também ouvirão
Dia distante, pois os leitores desse Vicente ainda estando por nascer ah
ahhh
esses dois livros, Orino,
que já eram livros enquanto ele ainda escrevia sonhava este Escuro da semente
mas sendo um só livro
eles também vêm nos falar:
do Vale, da Montanha:
duas meditações na Penumbra Andara, onde esse Vicente, que já ouve, mas sozinho, a Música do sangue das estrelas, se pergunta
o que é ou são O Livro, a vida e quem escreve e se escreve ou é escrito
e mantém um Diálogo com sombras, em que se diz, nos diz
que não se sabendo o que é mais invisível
Se

o livro invisível que ele não escreve, ou ele mesmo, em si
em si tentando o impossível se tornar enfim invisível inteiramente


é assim como no fim deste nosso ir para a Penumbra, ah, em Sonhos

não lhe baste mais só nos contar histórias,
e ele quer escavar ainda mais o animal que é,
sonhando e se sonhando
e escrevendo e se escrevendo
e não-escrevendo livros,

e faz escavações na Penumbra Andara,
quer achar a pré-história do Sono,
do sono de Andara
Andara: despertar em Sonho de Escritura
O sono de Andara

depois que ela adormeça para sempre,

e nós com ela, ah,
desfeitas
neblinas
tudo isso sendo Peregrinação através da penumbra de sermos,
ou de fugirmos de nós, nos buscando em fuga

Ouves? Ouves a música, a Fuga?

Mas isso se já fosse o que ainda não é,
não ainda nestas páginas por onde vamos passo a passo
Um passo, outro passo: Via dos Mutilados

:

ah a Penumbra: se para lá estão indo os nossos pés, em sonhos. Orino

haveremos de chegar



#



- Por isso te digo, Orino,
essas asas negras, brancas, negras
que agora vemos e não vemos como foices neste céu sobre nós,

não existem.

Elas são só uma invenção desse Vicente que nos escreve,
só que Elas ele inventa com asas de palavras,
enquanto nos inventa com palavras de carne, as humanas, as pesadas,
e nelas uns ossos vazios por onde sopra os seus sonhos


- É que esse Vicente,
vindo de um vale onde nasceu, é lá embaixo da vida,
o que ele mais quer é ascender, alado, e, leve, abandonar o Vários por maior Amizade ao Um





#




Não queres a pedrinha branca, Vicente?
Ó vicente, eu te daria a pedrinha branca

e com asas


se agora também dissesse a voz vermelha