18 de junho de 2009

ENTREVISTA: Nossa Tribo Peregrina


Por Maria João Cantinho


'Nossa Tribo Peregrina
por todos os recantos
do Real e dos Sonhos'


VFC





Vicente Franz Cecim nasceu e vive na Amazônia, Brasil, em Belém. Desde 1979 se dedica à invenção de uma longa e única Obra: ‘Viagem a Andara, o livro invisível’ – que segundo ele é ‘literatura fantasma, o não-livro, pois não é escrito’. Desse não-livro, sem palavras, e puramente imaginário, emergem todos os livros visíveis que compõem a Viagem a Andara, concebida e escrita em volumes individuais, independentes em sua interdependência, entre si, dos quais 13 já foram publicados, no Brasil e em Portugal. Andara é região-metáfora da vida: originou-se na mítica Amazônia, de um pequeno ponto do Universo, na Floresta, ponto que o autor denominou ‘Andara’ e completando agora seus 26 anos de criação. A reunião em volume único de seus 7 primeiros livros sob o título ‘Viagem a Andara, o livro invisível’ (Iluminuras, Brasil, 1988) recebeu o Grande Prêmio da Crítica da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte, que já lhe concedera, em 1980, o Prêmio Revelação de Autor, pelo livro ‘Os animais da terra’. Em 1981 foi Menção Especial no Prêmio Literário Plural, no México, por ‘Os jardins e a noite’. Em 1994, lançou outra coletânea de livros visíveis de Andara: ‘Silencioso como o Paraíso’ (Iluminuras, 1994).Seu mais recente livro publicado, ‘Ó Serdespanto’ (Íman, 2001, Portugal) foi apontado pela crítica portuguesa, em consulta a 14 críticos pelo jornal Público, como um dos melhores lançamentos do ano. Revistos e transcriados pelo autor, seus primeiros 7 livros acabam de ser relançados (Cejup, Amazônia, 2004) reunidos nos volumes ‘A asa e a serpente’ & ‘Terra da sombra e do não’. Após esta entrevista já publicou os inéditos de Andara: ‘K O escuro da semente’ (Ver o Verso, 2005, Portugal), a edição brasileira de ‘Ó Serdespanto’ (Bertrand Brasil, 2006) e ‘oÓ: Desnutrir a pedra’ Tessitura, 2008, Brasil. Ainda inédito, tem:‘Breve é a febre da terra’.





Maria João Cantinho – Você acaba de reeditar os 7 primeiros livros de Andara. O título, para quem não conhece os seus livros, suscita uma extrema curiosidade. O que é Andara, que universo é esse?

Vicente Franz Cecim – Andara às vezes não é nada//É só uma estrada/onde uma sombra longa, de homens, de pó, vai passando//Um ventinho, vindo não se saberá nunca de onde, vem e desfaz o pó,/desfaz os homens//desfaz a sombra//Andara às vezes não é nada./Não é nada.' - Esse é um dos possíveis dizeres sobre o que é, ou não é, Andara: está lá, logo na abertura do texto 'Música do sangue das estrelas' contido no livro visível de Andara 'Ó Serdespanto', ainda inédito aqui no Brasil, que a Íman lançou, em 2001, aí em Portugal. Há quem suspeite que Andara vem da palavra 'andar', e como há uma relação de rimas, ainda que inaudíveis, de laços de parentesco entre as duas palavras do título do não-livro 'Viagem a Andara', esses pensam que acharam o caminho. Pode ser o caminho, um deles, para Andara, mas certamente não é o Caminho, o Único: esse, nem eu sei, porque Andara apenas se escreve através de mim, em Transe Verbal, e muitos silêncios, cada vez mais longos vales de silêncios a atravessar. Mas para chegar aonde? Não sei. Eu por mim suspeito que Andara é só a Viagem: não parte de Lugar Algum, e mesmo talvez, em seu Segredo, querendo, não quer chegar – porque parece impossível, humanamente, assim só homens como somos, chegarmos – a Algum Lugar. Já estamos no Lugar do Humano. Que é um lugarzinho imenso. Posso continuar tentando dizer o que é Andara, mas será sempre inútil. Quer ver? Repito o que já disse em outra entrevista à revista brasileira Azougue: - Andara sou eu, me vivendo em sonhos de Escritura de mim mesmo. Ou: - Em relação à literatura, Andara não é mais Literatura, é Escritura e desvio onto-introspectivo, em relação à Literatura. Continuo tentando? Não sei bem para que, mas tentemos: - Andara é Coisa que viaja por dentro e no sentido inverso: quer retornar dos dedos dos pés ao calcanhar de Aquiles do homem, ali onde ele é mais sensível à Hipótese Onírica e Lúdica e Naturalmente Sagrada da vida. Andara quer a Origem, o Antes do ponto em que tudo começou a se perder do Todo, o ponto oculto de nós, homens, que só se consente a nós em Relances, Vislumbres. Se ela quer alguma coisa – é Isso. Eles também me perguntaram, estou relendo a entrevista agora: - E esses vislumbres em Andara permitem ver o que? - O Onde e o Quando o natural e o sobrenatural ainda não haviam sido deformados como oposições que se excluem mutuamente, foi o que respondi. E essa é uma resposta que mantenho: - Andara se opõe à Matriz dos dualismos. De todos os dualismos. Ela é Demanda do Um através do Vários. - Mas vê, Maria, o quanto eu também sou vítima do fascínio de Des-cifrar Andara. Falei tanto, não disse quase nada. E Cifrei mais ainda Andara.

M.J.C. – De Andara e dos seus livros, a crítica brasileira foi unânime em reconhecer-lhe a excelência. Um universo mítico, uma linguagem mística, onde se reconhecem os vestígios de inúmeras vozes que o influenciaram. Posso citar duas? Borges, Juan Rulfo? Que outras vozes se encontram em Andara? Onde bebeu o seu misticismo? Platão? Heráclito?

V.F.C. – Não gosto de entender as relações mútuas entre criadores como simples ‘influências’, esse é o diálogo superficial, aquela ‘angústia’ de que fala Harold Bloom pode até existir, e – Sim, existe, mas são fases, se dá ainda no Tempo das Buscas do nosso próprio Autor em nós. Entendi isso quando entendi que ‘ler é Nutrição ou não será nada’ – como um mero Leitor se nutre do que lê, ou se entrega aos seus jejuns solitários, assim também opera o Autor. No essencial, é a mesma Alquimia. Processamos alimentos. Transmudamos parte deles em nosso próprio ser – mas não no Ser imenso em nós, que só se funde ao Um que se projeta em Vários: esse é o Ser intransmutável. Pelo menos eu opero assim. Quanto à crítica brasileira e sua recepção muito favorável a Andara, isso se deu desde o primeiro livro, ‘A asa e a serpente’, em 1979, mas editar Andara continua sendo muito difícil no Brasil ainda hoje. E mesmo em Portugal, ainda não consegui publicar mais de um volume de Andara. A Viagem a Andara não é o manipulável e vendável Caminho de Santiago de Compostela, a superficialidade desperta da maioria dos editores se junta à superficialidade adormecedora da maioria dos leitores, e, como eu disse: – Andara é coisa que viaja por dentro. No fundo do Profundo onde o Real e o Sonho são convidados a vir à tona juntos. Andara não quer ajudar, e se quer Curar é libertando, não iludindo, condicionando, recondicionando. Quanto ao mítico e ao místico nos livros de Andara, o primeiro é certamente Memória Ancestral da Humanidade e, no meu caso, se nutriu, e provavelmente se ampliou, do fato de eu ser um nativo, apesar de ter sangue árabe e sardo ainda fluindo nas veias, da Amazônia – geografia real por fora transfigurada em região-metáfora da vida por dentro, em Andara. O segundo, o místico? Eu faço a mesma pergunta a Platão: - Onde tu bebeste teu Misticismo? – Provavelmente ele responderia que bebeu na mesma Fonte, onipresente e ao mesmo tempo sempre oniausente, discreta, oculta em si, em que bebe toda coisa viva e com insaciável Sede infinita o animal humano. Voltando às influências, ou nutrições, amo Rulfo – com quem tenho em comum um profundo sentimento pelas brumas glaciais da literatura nórdica: Knut Hamsun, por exemplo - e amo Heráclito, como amo em equilíbrio com ele, Parmênides: o Efêmero & o Permanente – e, por isso, sem dúvida deles me nutri, mas Borges e Platão eu apenas admirei, admiro, observo, medito. Mas não devemos situar Borges no mesmo território de Platão: o primeiro é um construtor de belas ruínas circulares, o segundo é ou busca ser o próprio Círculo que dá origem, na ilusão do Tempo, a essas irremediavelmente futuras ruínas. Ruínas são fascinantes: quando abandonadas, esquecidas pelos homens, o Vento continua as visitando, soprando através delas. Volta sempre. O Vento nada abandona – esse Invisível amante das Areias, que só se mostra no visível quando agita os nossos cabelos ou as folhas de uma árvore. Falo do Vento como Anima. Então, como Verbo fecundador. O nosso Abismo é vir um dia a saber se é o Verbo que gera o Silêncio ou se é o Silêncio que permite e engendra a manifestação do Verbo. Tudo isso é Andara. Tudo isso é o Vazio que transborda através de nós e, então, também através de mim, em Andara. Ave, ouve, Maria: - Há tantas vozes murmúrios gritos uivos sussurros nos ventos que sopram e contam suas histórias através de Andara, que já não sei distinguir quando são as Asas de Angelus Silesius, o Uno de Plotino ou a Originação Dependente de Nagarjuna, além de tantas outras vozes que se apresentam Anônimas, falando, ou a própria Voz de Andara se falando através de mim. O relançamento, agora, em versões, atenção para essa palavra: ‘transcriadas’ – criação sobre criação sobre criação, escavações de Raízes e re-semeaduras de Sementes: foi essa a transmutação, a vivência que experimentei – dos 7 primeiros livros de Andara, reunidos nos volumes ‘A asa e a serpente’ e ‘Terra da sombra e do não’, só me confirmou nessa Dúvida. Ainda sobre ‘influências’, uma palavra: - Um escritor ‘kafkiano’ é um Pecador inconfessável contra a originalidade absoluta de Kafka, da qual só devêssemos nos aproximar com Amizade não-corruptora, não-contaminadora, preservando sua essencialidade Sagrada, intocável. Só assim também nos aproximamos da nossa submersa latente sacralidade.

M.J.C. - Fala de Escritura e de desvio onto-introspectivo em relação à Literatura. Blanchot fala disso em ‘Entretien Infini’. Mas do que está a falar, quando refere o desvio? Subverter o cânone? Suspender a linguagem para escutar o sopro inaugural?

V.F.C. – Há coisas que se dizem por sua própria Etimologia, é assim que elas mais nos falam e não devemos falar mais nada, traduzir por outras palavras, o que elas em si já dizem. São intraduzíveis. Não achas? Apenas quis dizer com isso que aguardo um Tempo em que seja a ‘Palavra praticada como Vida, a Literatura praticada como Ontologia.’ Escrevi isso na apresentação de um livro e em outros lugares por aí. Então, deixemos de lado a conformação verbal ‘onto-introspectivo’. Já temos uma tarefa imensamente Perturbadora de que devemos nos ocupar agora: o Desvio. - Desviar de que, desviar para Onde? Já não estamos no Desvio, já não somos o Desvio humano semeado num Universo que estranhamos, e, por isso, por esse Estranhamento, compreendemos ou julgamos compreender? Contraímos uma familiaridade, por exaustão de convivência, e acabamos por nos empobrecer de estranhamentos. Mas familiarizados, ainda estranhamos, e estranhando a nós mesmos – existe Enigma mais impenetrável do que o homem? – buscamos nos familiarizar com nós mesmos. Vê: uma Árvore já está na Via do seu ser, ela é essa Via. Uma Pedra também. Uma Ave. Mas o Homem, qual é a sua Via? Um Homem é habitante de desvios incessantes. Uma vez ouvi o angélico escavador em espelhos Robert Bresson, citando alguém que não lembro, dizer: ‘- É preciso desviar pelo saber.’ Fiquei pensando: - Mas a qual saber ele se refere? É possível obter um Saber numa vida que se parece tanto um tecido de Sonho, a não ser o Saber que sonhamos e Somos Sonhados – e talvez sonhemos a nós mesmos? Nossa natureza é desviante, não nos é dado um Saber Fixo, jamais – Jamais. Embora seja uma verdade vertiginosa aquilo que Keats vem nos dizer assim: ‘A thing of beauty it’s a joy forever’/’Um vislumbre de beleza é uma alegria para sempre.’ Não sei se isso é uma Condenação ou uma Graça. Só sei que Andara é Busca & Desvio ao mesmo tempo, não são oposições que se negam, antes, se complementam, se complementem, é pelo que espero – e que nela, Andara, tudo se dá buscando no labirinto de um Desvio e se desvia incessantemente no desvio de uma Busca. Não sei porque as coisas são assim. Quando soubermos, se um dia isso acontecer, então fica a interrogação: - Para que mais continuar praticando a Literatura, mesmo como Ontologia, pois já teremos chegado, ou melhor: - Retornado, à pura Ontologia, que de si não se desvia, sob pena de não ser? Ou ela é a mais perfeita forma de Desvio a que estamos destinados? Blanchot? Esse ‘Diálogo Infindo’ de Blanchot eu fui buscar na estante e tenho ele agora aqui comigo. Abro ao Acaso. E, curiosamente, o que acho não são palavras de Blanchot, mas, na epígrafe do livro, estas palavras de Nietzsche: ‘- Isto é uma bela loucura: falar. Com isso, o homem dança em e por cima de todas as coisas.’ Mas em outra epígrafe, ao seu lado, já ouço a voz de Mallarmé resmungando em êxtase: ‘- Esse insensato jogo de escrever.’ A Insensatez é se manter no Desvio, então? Por outro lado, sem Insensatez não há, não haveria Literatura, e nesse sentido é a Insensatez da Literatura que pode nos desviar do Desvio. Ao mesmo tempo que nos confirma nele. – Se recusar à fixidez do Cânone, de qualquer cânone, suspender a linguagem para escutar o vôo inaugural. Voar sempre o primeiro vôo, que todo novo vôo seja sempre o primeiro vôo. Sim, é disso que se trata. No segundo livro visível de Andara, ‘Os animais da terra’, tão antigo, de 1980, no entanto ainda está escrito e isso não mudou com a minha recente ‘transcriação’ dos livros: ‘embora a ave mais bela seja aquela que se recusa a voar.’ Posso encerrar com uma outra frase, esta efetivamente de Blanchot no ‘Diálogo Infindo’? Eis, está na página 41 da minha edição pela Monte Ávila, Venezuela, 1996: - ‘O céu é azul, é azul o céu? A segunda frase não retira nada da primeira, ou é um retirar como um deslizamento, como uma porta que gira em seu eixo silencioso. A palavra ‘é’ não foi retirada: só foi aliviada, feita mais transparente, proposta a uma dimensão nova.’ - Maria, suspeito que é da palavra ‘é’ que a Literatura deve suspeitar sempre, porque a Literatura é no máximo um pequeno espelho colocado diante de um imenso Espelho, certamente um Simulacro da vida vivida, ou Sonhada. E esse ‘é’, é onde: no Onde? Podemos tentar vislumbrá-lo, mas isso já não é viagem linear para a Literatura Canonizada, com suas fronteiras mortas de gêneros, normas, regras, cultos – ao contrário, é um movimento que se atira contra a própria Instituição chamada Cultura – é andasse, andaríamos, é – Se eu andara: é Andara – Tempo da Hipótese, se indo cada vez mais para o abismo ou céu aberto da Pura Escritura e para o Silêncio, sobretudo para o Silêncio, o Advento do Silêncio que há de vir – por ele, espero e não espero – pois a meta sem-meta é permitir que o Vento: o Verbo, mas já sem voz, sopre um dia que talvez nunca virá através das Ruínas das palavras da própria escritura, como atualmente já sopra nas ruínas comoventes da literatura. – Percebemos essa brisa, essa aragem que nos chega do Futuro?

M.J.C. – Fala da ‘aragem que nos chega do Futuro’ em Andara, mas eu acrescentaria as vozes do passado que se fazem ouvir por todo o lado. Que espécie de memória e tempo são estes que emergem em Andara?

V.F.C. – Um criador de Escrituras, não um mero escrevedor de literatura, também é feito de ouvidos, talvez sobretudo de Ouvir, não somente de Voz. – Quem tiver ouvidos, ouça. - Não foi o que uma Voz bem mais antiga que as nossas uma vez nos disse? Ouçamos, então. Mas com quais ouvidos, com qual Ouvido em nós? E a que Voz, que nos fale? Nossa Tribo Peregrina se move por todos os recantos do Real e dos Sonhos em Demanda das Dobras em que se oculta o Ser. Tentamos nos tornar as próprias Dobras do Ser. É isso o que buscamos, penetrar Ilusões, não apenas escrever. Quando escrevemos, estamos na verdade desdobrando, desencantando o encanto que nos oculta o Ser – para que ele possa se mostrar a nós, a todos nós, a Si Mesmo, no Visível, como o Puro Encanto que é. Que fosse. Que seja. Que seria. Que sendo. Que talvez. Que, quem sabe? – Maria, ave, ouve isso: o mais enfeitiçante autor da literatura brasileira, João Guimarães Rosa, disse um dia, a partir do seu Sertão: Veredas: - ‘A gente não morre, fica encantado.’ Por muito tempo acreditei nisso. Mas cheguei a uma outra compreensão. E da minha Amazônia: Andara, agora digo, inversamente: - ‘A gente não nasce, fica encantado.’ O nascer no Visível é o Encantamento a que nos submete o Invisível. Qual é a finalidade disso tudo? Há uma finalidade? É perguntar certo, perguntar por uma Finalidade? É um Ato Gratuito da Vida, a Vida? Abandono o homo sapiens. Clamo pelo homo ludens em mim. Me pergunto. Pergunto outra vez, e mais outra, e mais outra. Salto de uma pedra a outras das perguntas, vario as perguntas. Invento linguagens inexistentes para nelas fazer a Pergunta. Pergunto à própria Pergunta qual é a Pergunta? Me lembro de Jidu Krishnamurti, que muito amo, dizendo que a Pergunta Certa já contém em si a Resposta. E pergunto em todos os Lugares, em todos os Tempos de mim e da vida – porque é sempre no Tempo da Hipótese que é todos os tempos verbais e tempo sem-tempo e lugar sem-lugar e Lugar de Todos os Lugares, e Tempo de Todos os Tempos, que falo e ouço Andara e suas vozes. Seus silêncios eloqüentes. Seus sussurros, invejo seus Lábios sutis. Aguardo, anseio, desisto, retorno à Pergunta: oro pela Resposta. Amaldiçôo o Silêncio. Peço Perdão ao Silêncio. Me escuto calado. Veja uma formiga na terra, uma ave no céu – não entendo o real que todos vêem - tento ver o Inverso, como se fosse a realidade invertida, assim: um ave pesando sobre a terra, uma formiga alada no céu – creio novamente que a Pergunta é possível, que a Resposta é possível. – Ah, Maria, nossa Tribo Peregrina se move por todos os recantos do Real e dos Sonhos em Demanda das Dobras em que se oculta o Ser. Do Ser em que se ocultam as Dobras? Viver da Espessura, na densidade das coisas e de nós mesmos me parece ser uma Destinação de Alquimistas para todos nós: apenas de uma coisa se trate: o Invisivelmente quer ser o Visivelmente e nossa tarefa é uma só: - Dar visibilidade ao Invisível. Mas sem que se choquem em oposições ou subtrações de Um pelo Outro: manter o Elo entre ser e não-ser. Por isso inverto o Rosa: - ‘A gente não nasce, ficas encantado.’ Mas preservando o que ele diz: - ‘A gente não morre, fica encantado.’ A Verdade é feita de muitas verdades. E todas essas verdadezinhas estão em nós. - Se dispersando em todas as direções a partir do Um inicial? Convergindo todas elas para o Um final? Enquanto não sabemos a Resposta, porque não sabemos a Pergunta, fiquemos com Heráclito. Pelo menos eu devo ficar assim, nessa Vigília Adormecida, que é a humana, em Andara – entre O Visível dos livros visíveis de Andara & o Livro Invisível que é Andara em seu todo inesgotável e insaciável. Heráclito. Não foi ele, o Obscuro Transparente, quem disse o Fragmento já despojado de Resídua, nos apontando a condição do nosso ser imerso em Dobras - ‘Vida ama ocultar-se.’ Não foi? Em Andara, pois, ele, também o Transparente Obscuro, tenha uma fecundante Presença. Andara, como a Vida, é sempre esse jogo infantil de esconde-esconde por entre as Dobras de existirmos, todos: homens, árvores, insetos, estrelas, as Sombras das Coisas também, é sempre esse Claro-Escuro de Terra Fogo Água Aragens ou Ventos soprando. Ora avivando as nossas Chamas, ora apagando em nós a Luz. – Nós somos, sempre, aqueles homens que, na Noite, em Andara, se sentam sob uma árvore e acendem uma fogueira, Fogo & Escuridão, para se contarem e ouvirem histórias. E os murmúrios da Terra e o Silêncio do céu sobre nós. E se nos contamos histórias, é somente na esperança de que um de nós, um dia, em um dos Livros de Andara, faça a Pergunta Certa, que já será a Resposta. Seja qual for ela. E se há Resposta. Esse é o Enigma, embora em toda Andara ele esteja sempre presente, muito especificamente abordado no sétimo livro visível: ‘Música de areia’. Nos 13 livros visíveis de Andara que já consegui editar, nos 3 que ainda estão inéditos, e nos 7 primeiros ‘transcriados’ e agora relançados nos volumes ‘A asa e a serpente’ e ‘Terra da sombra e do não’, é em torno desse Fogo para ouvir essas Vozes que seus possíveis leitores devem também se sentar. Sem temor de se perder no labirinto, ou labiantro, dos livros visíveis de Andara, que vou extraindo do não-livro ‘Viagem a Andara, o livro invisível’ ou a ele acrescentando – porque cada um deles, em si, é autônomo e tem sua própria pequenina voz e conta a sua história. Quem conhece apenas um livro de Andara, já pode conhecer Andara inteira, porque nesse único livro já terá penetrado na Trama Verbal comum a todos – que é o essencial Ser de Andara. Como se diz disso? Ah, sim: holograma. Andara é, seja, fosse, seria um Holograma, em que todas as partes contêm em si o Todo. E vice-versa. Não é um ciclo, como ‘A Comédia Humana’ de Balzac? Não apenas, porque os livros de Andara mais se entretecem e se interdependem em sua independência do que a Comédia de Balzac. Também não é uma saga, introspectiva, como “Em busca do tempo perdido’ de Proust, que se desenvolve num continuum passo a passo e Andara, embora seja viagem, já está toda ela num só lugar: o Lugar de Todas as Introspecções. Em qualquer de seus livros, lugares. Talvez seja mais como o ciclo, encantatório, desprendido, desapegado de suas partes de ‘As 1001 noites’ de Sherazade, unificado pela Voz que Conta, mas sem lamentar que alguém conheça ‘Simbad, o Marujo’ e ainda não conheça ‘Aladim e a lâmpada maravilhosa’. Andara? Ah, Andara é Tapete Mágico também, para através dela sobrevoarmos a Vida, o Ser. Creio que para ela há também leitores inocentes, que podem julgar estar lendo a saga ‘O Senhor dos Anéis’ do Tolkien.

M.J.C. – O seu livro, que já citou, e que foi publicado em Portugal, ‘Ó Serdespanto’, surpreendeu os críticos portugueses, que muito o elogiaram. Para quando o segundo livro de Andara?

V.F.C. – Para quando os Monstros Marinhos que vigiam a travessia do Aquém-Mar ao Além-Mar novamente me permitirem passar.

M.J.C. – Que relação tem com a literatura de Portugal? Assídua?

V. F. C. – Tudo começa em Pessoa – e se dá no Mistério da Pessoa, em nós: é através dela que o Vários manifesto & o Um implícito fluem, e vêm, e vão: - Se fosse em Andara eu diria: - ‘É um isse e ficasse incessante’, um sempre ir e sempre ficar, que é Ausência & Permanência. Não sei como Isso se dá, não sei, mas é na medida humana de uma Balança como a de Heráclito e Parmênides que devêssemos procurar um rastro a seguir. Um Sinal do Animal de Terra e Sonhos que nos habita e no qual habitamos. Já falamos do Efêmero & do Permanente. - Maria, antes de falar sobre a literatura portuguesa, deixa eu te contar uma experiência vertiginosa, que foi linda, fascinante, e que tive em Portugal: ela me evidenciou que Pessoa não morreu, como se acha de quem morre. - Continua Vivo. E que o maior Dom de Sermos é que todos continuaremos infinitamente vivos, o mais Leve em nós, reabsorvidos na invisibilidade do que sonhadoramente no Oriente se diz ser o Sonho de Brahma, o mais Denso, re-semeando a Terra, a Gaia, re-acolhido em seu colo-ventre. Quando estive aí em Lisboa, em 2001, para acertar detalhes da publicação de ‘Ó Serdespanto’ com dois então preciosos amigos meus: o editor poeta António Cabrita e o poeta crítico Jorge Henrique Bastos – este, nativo da Amazônia como eu, vivendo em Portugal há mais de dez anos – pedi a eles, era a primeira vez que eu ia a Portugal, que me levassem ao Pessoa. Mas onde achar Pessoa? Fomos então ao Mosteiro dos Jerônimos, em Belém, a Belém portuguesa onde Pessoa estaria morto – vê os mistérios se cumprindo – a mesma Belém que deu seu nome antigo à atual Belém, capital do Pará, aqui onde eu nasci, na Amazônia. Íamos todos juntos, éramos umas sete ou mais pessoas, alegres, estávamos todos muito contentes só por estarmos juntos, saltitávamos pelas ruas. No grupo havia também umas pessoazinhas muito curiosas, uns pequenos gnomos: umas crianças. Mas quando me mostraram, de longe, o local onde o corpo de terra de Pessoa estava depositado – me atingiu uma Melancolia, uma emoção, um abalo tão grande – que comecei a chorar: aquelas lágrimas eram Saudade dele. Meus amigos perceberam e ficam silenciosos. Com um gesto, pedi a eles que me esperassem – e fui Lá, sozinho, me chegando aos poucos. O que eu podia fazer, qual era o Diálogo entre eu e ele e por que Via poderia esse Encontro se dar? Tristíssimo, me ajoelhei sobre uma perna, coloquei minha mão sobre a Pedra sob a qual Pessoa estava – e, por entre as Lágrimas, e sem voz alguma – perguntei a ele: a Ele, sob a Pedra, uma pergunta que correu de mim pela minha mão através da Pedra, pergunta que não posso revelar a ninguém, e que era da natureza de um puro Sentimento, mas que, numa tradução para o Explícito, foi mais ou menos assim: – Qual é o significado da Vida, me diz, porque te pergunto com todo o meu amor: - Existe a Alegria de Ser? - E até onde vai, o quanto dura, ao que resiste: a tudo, no Todo? Ainda agora sinto a vibração e a intensidade límpida da Resposta. Foi, sem nenhuma, nenhuma, nenhuma dúvida, um – Sim, um Sim Absoluto, dito na Outra Voz, a mesma em que eu havia perguntado a ele, e tão verdadeiro, tão definitivo e avassalador foi esse – Sim, que me inundou todo eu Inteiro, me voltando, através da Pedra pela minha mão – me tomando de uma Alegria, que já era um Júbilo, de uma Felicidade já sem mais qualquer Tormento – que transmudou, miraculosa Alquimia – todas as minhas Lágrimas em Riso, depois um Sorriso sereno, Paz na alma aos homens de boa-vontade. Pude então me levantar e voltar para os meus amigos, que a uma prudente distância me observavam e esperavam. Alguém me fez a pergunta que acho que era a de todos: - O que aconteceu? Foste chorando e voltas Rindo? – O que eu poderia dizer a eles, como dizer a eles o que havia acontecido? Distribuí pelo grupo alguns beijos e abraços e meus mais meigos afagos e meus mais puros carinhos – e saímos todos – eu, para sempre submerso na Resposta de Pessoa, já não era um homem, pois, em mim e através de Lisboa – voava. Tão enlevecido fiquei. Eu, e bem mais próximo das nossas Crianças, na volta, o mais gnomo de todas. - Depois, meus encontros com a literatura portuguesa foram: - A minha descoberta, viva, da pessoa magnífica de Herberto Helder, que poeta vasto e sem fundo, as nossas misteriosas conversas murmuradas, freqüentemente enigmáticas, até para nós dois mesmos, em tardes longas no Solar das Galegas, onde deixei a mesma cadeira, em que sentava nessas tardes de Sortilégios, sempre vazia, na sua mesa - pedi isso à dona - para lhe fazer companhia, a HH, na minha Ausência. - A descoberta dos livros de Maria Gabriela Llansol - que eu ainda não conhecia. E sabe por que? Todos nós sabemos, não? Entre Brasil e Portugal há editoras no Além & Aquém-Mar, em pleno século XXI, que ainda se dedicam, em vez de erguer uma ponte deslizante e ágil de mão dupla, a cavar um obstáculo Abissal: reserva de mercado líquido como que ainda povoado por aquelas Monstruosas Criaturas dos Mares Imaginários Medievais – ou Mar Vermelho que se recusa a abrir, e no qual cravam as perversas advertências que se costuma ler nos livros brasileiros e portugueses: - ‘Proibida a venda no Brasil.’ – ‘Proibida a venda em Portugal’. Mas então, eu dizia, descobri a Escritura singular, rara, essa da Llansol, única, como creio que ninguém mais ainda esteja fazendo em nosso tempo, na ficção, pelo menos, desde a partida de Beckett, para citar o máximo exemplo que ele nos deu daquilo que eu chamo ‘Literatura praticada como Ontologia’. – E descobri também poesia verdadeira, intensa e sensível em Luiza Neto Jorge. E depois já foi a publicação de ‘Ó Serdespanto’ pela Íman, e a aceitação generosa do livro por outras pessoas que não conheci pessoalmente, e que se tornaram maravilhosas para mim, num sentido interior de Gratidão e Maravilhamento profundos, porque escreveram sobre o livro com o mais cúmplice Entendimento, na imprensa portuguesa – o Eduardo Prado Coelho, no Público, Regina Louro, na escolha dos melhores do ano, Manoel de Freitas, no Expresso. E outros mais, de quem não tomei conhecimento porque temo os Monstros Marinhos e aos quais, ainda anônimos para mim, mesmo assim agradeço. E depois ainda não voltei aí, só me alimento das amizades virtuais trans-oceânicas. Amigos, sem rosto, que me enviam e revelam autores fascinantes, como Fátima Freitas me revelou Dalila L. Pereira da Costa: estou profundamente tocado pelos seus livros ‘A Nau e o Graal’ e ‘Da Serpente à Imaculada’. Como tu mesma, Maria João Cantinho, que me revelaste o teu incisivo ‘Anjo Melancólico’, sobre uma das tuas paixões: Walter Benjamin. Eu poderia falar, agora, talvez de Saramago, de como ele partiu em sua Jangada de Pedra para receber o Nobel. Poderia recuar mais longe, até Camões. À sua Máquina do Mundo. Mas, deixas que eu te confesse? A Presença de Pessoa ainda está em mim tão plenamente, e se intensificando sempre, desde aquele dia, daquele Diálogo através da terra - sobre a qual Al-Maharri, o sábio poeta árabe nos recomendava: ‘caminha com leveza sobre a Terra, porque estás andando sobre os teus mortos’ - que me impõe silêncio - Silêncio místico, ao qual me devoto e me sela os lábios, as Palavras, mesmo as escritas. Então, da literatura portuguesa falaremos mais em outra oportunidade, sim?

Azougue 10 Anos ENTREVISTA Vicente Franz Cecim












Azougue: O que é Andara?


VFC: O que é Andara? Posso responder como Flaubert respondeu: Madame Bovary c’est moi. Andara sou eu, me vivendo em sonhos de Escritura de mim mesmo.


Azougue: Isso é Andara em relação a você. E o que é Andara em relação à Literatura?


VFC: Em relação à Literatura, Andara não é mais Literatura, é Escritura e desvio onto-introspectivo, em relação à Literatura.


Azougue: E o que é isso? Apresentando “Biografia de uma Árvore” de Fabrício Carpinejar, você falou em “a Literatura praticada como ontologia, a Palavra praticada como vida.” É isso que tenta em Andara?


VFC: Sim. Andara? Andara é Coisa que viaja por dentro e no sentido inverso: quer retornar dos dedos dos pés ao calcanhar de Aquiles do homem, ali onde ele é mais sensível à Hipótese Onírica e Lúdica e Naturalmente Sagrada da vida. Andara quer a Origem, o Antes do ponto em que tudo começou a se perder do Todo, o ponto oculto de nós, homens, que só se consente a nós em Relances, Vislumbres.Azougue: E esses vislumbres em Andara permitem ver o que?


VFC: O Onde e o Quando o natural e o sobrenatural ainda não haviam sido deformados como oposições que se excluem mutuamente.


Azougue: Esse ponto seria aquele que Breton mencionou no “Manifesto Surrealista”, ponto em que “cessam todas as contradições”?


VFC: Mas, antes, Plotino já havia falado isso. Está lá, na sua famosa Circunferência que é Infinita porque seu centro está em toda parte. E não só Plotino. É uma ancestral percepção iniciática.Azougue: Andara então se inscreve nessa Tradição?


VFC: Digamos que Andara se opõe à Matriz dos dualismos. De todos os dualismos. Ela é Demanda do Um através do Vários.


Azougue: Mas se vale de opostos. A ave, a serpente. Está nos seus livros de Andara.


VFC: Sim. Mas se se vale do permanente embate entre as Luzes e as Trevas, entre a Asa e a Serpente, desde o primeiro livro visível escrito através de mim em 1979, justamente chamado ‘A asa e a serpente’, até o mais recente livro de Andara, o ainda inédito ‘O escuro da semente’, que está terminando de se escrever, agora em 2001, através de mim, é só para negar, não o Imanente pelo Transcendente, nem o contrário, mas as deformações maniqueístas que a Civilização foi nos legando e impondo a nós. Andara é um ir sem ir, em demanda do Ponto Vélico onde Visível e Invisível se engendram mutuamente. Aquele Ponto Vélico do qual uma vez Victor Hugo disse que, numa embarcação, é “o lugar de convergência, ponto de intersecção misterioso até para o construtor da embarcação, onde se somam as forças dispersas em todo o velame desfraldado.”


Azougue: Andara então busca esse ponto de convergência misterioso. Misterioso até para você, o construtor do barco de Andara?


VFC: Sim. Misterioso sobretudo para mim, que sou o que menos sei de Andara. Mero Instrumento que ela usa para se fazer existir, como o Castelo de Kubla Khan usou Kubla Khan em sonhos para tentar uma primeira vez existir, mas ficou reduzido a ruínas, e depois tentou existir uma segunda vez sob a forma de um poema do Castelo de Kubla Khan usando Coleridge, mas o poema ficou inacabado, ruína verbal, porque Coleridge interrompeu a transcrição para o papel do poema do Castelo sonhado não em pedras, mas desta vez em Palavras, para ir atender seu alfaiate que batia na porta e quando voltou, havia esquecido todo o resto do poema. É no que dá suspender por um instante a Vigília Onírica e permitir que penetre a Vigília Prosaica dos cotidianos. Borges, que gostava de contar essa história exemplar, com humor metafísico perguntava: “Qual será a terceira forma que isso que tenta existir assumirá?” Talvez essa terceira forma seja Andara. Pelo menos isso eu sei de Andara: que ela me usa para se existir.


Azougue: Mas você também não está buscando, através da invenção de Andara, respostas para as eternas indagações humanas? É onde busca, onde Andara busca em você, onde você busca em Andara?


VFC: Andara busca Ali, Lá, Aqui, seja onde for. E vai me levando com ela. Andara quer atingir aquele lugar do qual Eckhart diz: “Ali onde os anjos supremos, a mosca e a alma são semelhantes.” Está lá, transcrito em “Os animais da terra”, o segundo livro visível de Andara, de 1980. É uma busca antiga, como se vê. Um vôo bem antigo em mim, através de mim.


Azougue: Mas em Andara você a certa altura diz: “Embora a ave mais bela seja aquela que se recusa a voar.” Cadê o vôo, para onde voou?


VFC: Para isso, para se dar a essa Busca, Andara tinha que ser, e nisso se tornou, Lugar de Nenhum Lugar, o que equivalesse a dizer Lugar de Todos os Lugares.


Azougue: Você é filho nativo da Amazônia, que você costuma chamar de “A Floresta Sagrada”. Um dia até enviou um e-mail dizendo que a Amazônia era para você o que a Floresta Negra foi para Heidegger, lembra?


VFC: Andara é Geografia Verbal, dialogando com a Geografia Física da Amazônia, que, por ser Lugar de Natureza, é Lugar do Sagrado em epifania. Se não existisse a Amazônia e não se desse a circunstância fatal de eu ter nascido lá, talvez não houvesse Andara. Certamente, não: não haveria Andara. Então, Andara começou se nutrindo da Amazônia. Da Realidade da Amazônia. Mas da Realidade Onírica da Amazônia. A Amazônia é um tecido infindável de lendas, fábulas. Lá, aqui, parece não haver fronteiras muito nítidas demarcando onde termina a Realidade e começa o Sonho, e vice-versa. Em Andara também é assim. Mas não falo da Amazônia que aparece, mimetizada, na Literatura de Cultura, a erudita, a que se faz escrevendo palavras: falo da literatura Oral da região. Dessas raízes é que foi nascendo a não-árvore de Andara. Árvore que se iniciou como Árvore de Palavras, mas aos poucos foi buscando se tornar o que hoje é: uma não-Árvore de Palavras. Árvore Invisível. Esse tipo de Árvore, ninguém pode incendiar e reduzir a cinzas com fazem com as árvores da Amazônia.


Azougue: Você diz, então, que em relação à sua Amazônia, Andara é região verbal. Uma outra região.


VFC: Na Invenção de Andara, se retoma o sentido do Verbo como Sopro criador. Novamente o Demiurgo se faz presente. Mas o Demiurgo, neste caso, é só um homem: eu: coisa enquanto Imanente, efêmera. O que não impede que haja um Ímã em mim, pulsando pelo Transcendente. Não posso soprar o barro e criar vida, mas posso soprar as Palavras de dentro de mim e criar um Mundo Verbal. Nesse sopro, não digo: Faça-se a Luz. Apenas oro por ela. Nesse mundo, de Andara, não sopro: Desfaçam-se as Trevas. Apenas rogo a elas, como Caminho de segredos por algum motivo necessário, que, se desvelando, vão me deixando passar. Comigo vai todo o Cortejo de Neblinas de Andara.


Azougue: Em um dos seus livros visíveis você diz: “Personagem, coisa que, aliás, não existe e aqui está a noção de fantasma no lugar de personagem.” Quem lhe acompanha então nesse cortejo de Andara?


VFC: Pois em Andara já não há personagens, coisas, acontecimentos: há seres Neblinas, coisas Neblinas, sombras de acontecimentos imersos em rarefeitas Neblinas.


Azougue: Andara vem do verbo andar?


VFC: Vêm? Será? Eu mesmo às vezes me pergunto isso: Andara vem do verbo Andar? Não sei, só sei que também quanto a isso nada sei. São sempre obscuras e encerradas em si as coisas de Andara. “Vida ama ocultar-se”, dizia Heráclito. Eu, como um outro Obscuro, um obscuro mais selvagem, também me surpreendo freqüentemente me dizendo, a cada novo livro visível que estou escrevendo de Andara: Andara ama ocultar-se. E rio comigo mesmo, mas às vezes me intimida, me dá medo. É uma convivência, essa minha com Andara, com muitas Alegrias que eu não encontraria em nenhum outro lugar, mas também muito cheia de espessuras e súbitas fendas de entrevistas revelações. “Na obscuridade o ouro reluz”, dizia Pound. E Maupassant, tão belo e hoje tão injustamente esquecido, falava da presença insidiosa e temível de um Outro, oculto, por trás dele quando escrevia. Mas jovem, eu muitas vezes também percebi esse ‘Outro', lendo por trás dos meus ombros o que eu escrevia. Se era à noite, sozinho na madrugada, eu parava de escrever e ia dormir abraçado à mulher quem fosse na ocasião, assustado. Foram os primórdios de uma pré-Andara, pequeno contos que eu escrevia, ensaiando o Passo para penetrar em Andara e nela me perder, me fundir para sempre, como hoje estou.


Azougue: Mas você ainda não respondeu. Andara vem do verbo andar? Ou ‘ela' também lhe proíbe de dizer isso? É um segredo entre vocês dois: criador e criatura?


VFC: Pois é. Mas quem é o Criador, quem é a Criatura? Essa é uma outra das raras coisas que eu sei de Andara: Ela é o Criador, eu sou a Criatura. Em nosso caso, toda a história da Literatura se inverte. No livro “Silencioso como o Paraíso”, que tem duas entradas, duas capas, duas frentes, dois inícios e dois fins, mas nenhuma saída, eu sussurrei isso para o leitor, quase pelas costas de Andara. Numa das Entradas do livro, coloquei uma frase de Ângelus Silesius: “A criatura é o seu gosto de brincar.” E na outra Entrada outra frase de Ângelus Silesius: “À divindade agrada o jogo de criar.” Fiz como Dante, que pôs aquele aviso terrível na porta do Inferno: “Ó vós que entrais, deixai toda a Esperança.” Mas em Andara não há nada a temer: exceto o Temor e o Tremor, citando o título do livro de Kierkgaard, de nos vermos a nós mesmos e à Vida que, em seu Pudor, porque a Vida é uma coisa feminina e casta e cheia de Pudor, sob as Aparências, sob sua Epiderme dissimulada, se oculta de nós.


Azougue: Sim, sim. Mas você ainda não disse se o nome Andara vem do verbo andar. Você está proibido, por Andara, também de comer do Fruto Proibido?


VFC: Ah, me lembrou “O Eterno Adão”. Vocês conhecem? Uma novela póstuma espantosa de um outro e oculto Júlio Verne, que ficou velada pelo êxito das “20 mil léguas submarinas”, uma obra prima extraordinária.A família, depois da morte dele, escondeu do mundo. Mas “O Eterno Adão” é uma outra coisa, mais secreta, como aquele “O Castelo dos Cárpatos”, que ele ainda publicou em vida. Atroz poesia, como o “Nosferatus” de Murnau.


Azougue: Bem, você não pode responder. Nós entendemos isso. Andara é o Criador e você apenas a Criatura, e o Criador lhe proíbe de responder. Mudemos de assunto, então. Tudo bem assim?


VFC: Pois é. Se Andara vem de Andar, do verbo andar. Posso tentar responder isso. Vejamos, por onde começar? Pelo menos não pensei nisso quando emergiu em mim sua Geografia Verbal e foi tomando corpo. Mas agora, de tanto me perguntarem, passei eu mesmo a me fazer a pergunta: Andara provém do verbo Andar? Possa ser, acho que sim. Afinal, é Viagem, não é?: a ‘Viagem a Andara’. Peregrinação, Lugar de peregrinações através dos livros visíveis que escrevo de Andara. Mas também sendo o não-livro, o ‘Livro Invisível’ que não escrevo, que vai se formando como Livro Neblina a partir dos livros escritos e que só pode ser lido pelo leitor em Imaginação. No começo de ‘Viagem a Andara, o livro invisível’ eu disse: Situação dos livros de Andara: condenados à visibilidade para que Andara, a viagem ela mesma, possa existir como pura ilusão. Então, disso nasce uma delicada Teia de Espelhos e quase insuportável Tensão: Tensão que só pudesse ser manifestada se Andara se desse em um outro tempoespaço, espaçotempo que não mais o da Literatura instalada ora no Presente, ora no Passado, ora no Futuro, mesmo quando ela, a Literatura, mescla todos esses modos de tempo numa só Espessura de Tempo. Espessuras comunicantes. Para Andara, nada disso resolvia mais: a sua exigência extrema, a exigência que me fazia e continua fazendo, desde seu início até hoje, e lá se vão já 25 anos, era a de uma Abolição de qualquer Espessura. Sob essa pressão, aonde ela me conduziu aos meus limites, junto com os deslimites dela, os deslimites em que queria se instaurar, explodi para fora e para dentro de mim num Tempo Verbal que fosse o Único em que Andara pudesse se dar, não se dando, e falar não se falando, entre o Invisível e o Visível: o Tempo da Hipótese.


Azougue: Hipótese no sentido de uma abertura total a todas as possibilidades? Mesmo as que pareçam mais improváveis?


VFC: Sim, é isso. Essa Abertura Total. Andar leva a ando, andei, andarei. Andara nunca quis nada disso, desses andares apaziguadores das palavras. Andara quer o Sonho Verbal dos sendo, fosse, estaria, haveria de, houvesse, enfim, do: Andara. Eu Andara, tu Andaras, ele Andara. Por onde andaríamos, andássemos todos quando andamos em Andara, através de Andara, através dos livros visíveis de Andara? E andando através de nós, sempre, o Livro Invisível de Andara? Através de Andara, vivo repetindo, não se irá a parte alguma. Pois o sentido da Viagem a Andara é a Viagem em si mesma. A si mesma. Através de Andara vamos, de alguma forma vamos. Sim. Ou não vamos? Nunca fomos, nunca iremos? Também parece que Sim. Mas vamos num ir sem ir, num ir ficando, e permanecemos num ficar indo, a meta esteja atrás, ora adiante. Ora meta alguma, ora todas as metas. Quais? Mas quais? A meta sem meta com meta, por isso, Andara é a Viagem ela mesma, em si. Em Andara, estejamos indo, sempre, inapelavelmente, não há remédio, através de Luzes, através de Sombras. Neblinas humanas através de Neblina de Mundo. Andara? Para tentar dizê-la de uma só vez e mais uma vez, claro que inutilmente, pois ela nunca se entrega inteiramente, Andara é, enfim: Demanda de Penumbra: Demanda do Graal dessa luz crepuscular e ao mesmo tempo dessa luz de Aurora, dessa entreluz onde já nenhum Sol exterior brilha mais ocultando a Luz ao mesmo tempo Natural e Sobrenatural que todas coisas, tudo, emite de Si, e disso já falava Paracelso, e é um Saber dos Alquimistas, se dando a perceber, se dando a conhecer em suas Identidades Veladas. Em Andara, estamos cegos para ver. Ou, talvez, fiquemos cegos por tanto ver Clarões na Noite em que tudo é Chama Oculta. Por isso eu disse no começo da nossa Entrevista: Andara já não é mais o que um dia foi a Literatura, como uma certa Tradição, se espessando em nós, nos acostumou a aceitar. Teve que ser um outro tecido mais fino de Escritura para poder se fazer desvio ontológico, introspectivo, em relação ao homem e em relação à vida inteira, a Manifesta e a Oculta. Em relação à Literatura, como prática da palavra designativa, palavra nefasta que cada vez mais se instala entre nós, Andara só sabe falar a Voz das Perguntas, muita perguntas. Mas de um certo jeito que quase abole a necessidade de respostas. As respostas já estando contidas nas perguntas, ao serem formuladas.


Azougue: Andara então, todos os livros de Andara, são uma imensa pergunta?


VFC: Sim. Andara é toda ela Escritura de Pergunta, mas que se inventa mundo, mundo verbal, não só após ter recebido as respostas, e sim no próprio ato de perguntar. De se perguntar suas respostas à Vida. A Surda que nos Ouve. Lá no começo, com Flaubert, eu disse que Andara sou eu. Ah, e o que sou eu?


Azougue: Sim, nós também gostaríamos de saber. Quem, ou o que, é você?


VFC. Eu? Eu sou um ser de espanto, um ser despanto, um serdespanto. Já disse isso antes. ‘Ó Serdespanto’, é o título do penúltimo livro visível de Andara editado em 2001 em Portugal, mas ainda inédito no Brasil. Eu sou aquele Serdespanto. Coisa aérea entre Céu e Terra, imerso em Perplexidades, as nossas Perplexidades de Existirmos em Homem. Haja, também, as Perplexidades das coisas em se existirem em Montanhas, Peixe, Centopéias, Estrelas, Galáxias e das Sombras em se existirem Sombras. Pois eu sou Serdespanto. Como tudo é. E sou também “Os animais da terra”, todos os animais da terra. Assim pelo menos me fui também desde esse segundo livro escrito de Andara, publicado em 1981. Também sou a Asa e sou a Serpente. Em Andara, sou, somos, sempre Queda e Ascensão, Ascensões e Quedas.


Azougue: Qual é a mais abrangente e a mais clara definição de Andara, se isso lhe é permitido dizer? Com todo o respeito pela sua misteriosa Andara? Podemos responder a isso e encerrar por aqui.


VFC: Queria terminar, depois de Flaubert, com Cervantes. Cervantes disse melhor do que eu próprio, por mais que sempre tente, posso dizer, o que é Andara, o que fosse, o seja Andara. E o que é, num sentido vertiginoso, de Queda para o Alto, essencialmente a Literatura. Mas para isso ela, a Literatura, teve que vir se ultrapassando em Escritura. E, no “Livro Invisível de Andara”, eu próprio me descubro usado por essas incessantes ultrapassagens, como porta-voz de um outro Advento, este, um Advento Infinito, infinitamente além, ou aquém, até mesmo da Escritura, a Escritura sendo esse espaçotempo verbal tão arduamente conquistado, aos poucos, e que se dá em plena liberdade de Invenção das Palavras e das Coisas, para ficar só nos escritores que mantiveram e mantém contato com o ato de ‘contar', como é o meu caso, em Andara, porque eu continuo contando histórias, embora sejam as histórias já quase não-histórias de Andara e contadas da maneira oscilante entre o se dizer e o não-se dizer de Andara, isto é: o texto se tornando o Espetáculo, a atração da Noite que a Penumbra Andara encena, e a história ou ainda quase-história contada, se invertendo os pólos, a sua Consciência.


Azougue: Então, apesar de toda a inovação que Andara traz para a Literatura, você ainda conta histórias?


VFC: Sim. Não há nada de negativo em contar histórias, o homem ainda está no estágio de ouvir histórias, de se contar histórias, a Amazônia e as histórias fantásticas que a minha mãe Yara Cecim, também escritora, me contava para fazer dormir, me ensinaram isso: a amar e respeitar isso, as histórias dos seres, dos homens, da vida. Eu ia adormecendo e mergulhava nessas histórias da Infância, me tornava também personagem delas. Se apagava a fronteira entre a Vigília Diurna e o Sonhar Noturno. Isso também nutriu, certamente nutriu muito Andara, quando eu ainda nem suspeitava que ela me viesse um dia, como acabou vindo. A própria Vida talvez não seja mais do que uma História que vivemos como personagens de um Autor desconhecido. Não necessariamente aquela “história cheia de Som e Fúria, contada por um idiota, e que não significa nada”, como disse Shakespeare. Isso, não. Não devemos fazer definições definitivas sobre nada. Mas no sentido em que o mesmo Shakespeare disse que “somos feito do mesmo estofo de que são feitos os sonhos”, uma percepção muito medieval. Andara, aliás, e isso eu posso dizer: é uma coisa muito medieval. Eu sou um homem medieval, de uma certa maneira. A Idade Média, sem que eu saiba porque, sempre me atraiu. Então, esses autores, precursores e consolidadores de uma Literatura de Escritura, antecipadores e consolidadores de uma compreensão sempre mais e mais libertária da Literatura como Simulacro da Viva Vivida, às vezes revelador, às vezes mais velador da vida ainda, esses escritores que foram grandes encenadores de Alegorias, Fábulas, Parábolas, mestres da Metáfora viva mais viva que a Vida Vivida, agentes iniciatórios na conscientização do Sermos o Sonho de Sermos, rompedores dos grilhões da Mimética, superadores do homo faber no fazer literário pelo homo sapiens, superadores do homo sapiens no saber literário pelo homo ludens, povoadores do Onírico, transeuntes do humano ao que já chamo de ´o Umanoh’, gente, para ficarmos só no denso Ocidente, ah, tão pouco sabemos do sutil Oriente, e no Ocidente mais recente, como: o Chrétien de Troyes do ciclo da Demanda do Graal, o Baltazar Gracián do "El Criticón", John Bunyan, Rabelais, Cervantes, Swift, o intolerado Sade, Lawrence Stern, Kleist, também os narradores Novalis de "Saïs" e Hoelderlin de "Hiperión", Lewis Carroll, os alegóricos Melville e Hawthorne, o Horace Walpolle de "O Castelo de Otranto", o Lautréamont no limite do narrativo de "Maldoror" ,Dostoiévski, claro, por suas espreitas à Alma encerrada no Corpo, e o a todos superior: o milagre Kafka, Bruno Schulz, encantador, Gyula Krúdy, tão encantador quanto ele, Proust, Céline, Musil, o diáfano taoista Hermann Hesse, Jean Giono, Witold Gombrowicz, Julien Grac, Broch, sobretudo o de "A morte de Virgílio", Malcolm Lowry, o infinito rarefeito Beckett, e o zen Salinger, estranhador de cotidianos, o humilde desconhecido maravilhoso Amos Tutuola, que só aprendeu a escrever depois de adulto, autor do perturbador “O bebedor do vinho de palmeira”, na Nigéria, e aqui também queria lembrar um escritor considerado de segunda categoria que eu, nem um pouco preocupado com os critérios de qualidade literária, porque o que busco é mais do que o mero talento, amo muito e muito me nutriu para Andara, não exatamente por sua Escritura, mas como abertura para todos os Imaginários, Stephan Wull, que fez vulgares livros delirantes de ficção científica como “La Mort Vivant”/ “A Cadeia das 7”: metáfora juvenil em mim antecipadora da Metáfora Central de Andara: a convergência, para o Um, do Vários em que se dispersou. Quem já leu Andara e por acaso Wull saberá por que falo isso. E já que chegamos a esse considerado gênero menor, mas na verdade um dos mais libertários territórios entreabertos pela Literatura como sonda cega que se atira à frente de si mesma, e o futuro me confirmará, a ficção científica: também cito o senhor Herbert Georges Wells, sobretudo o daquele período fecundo que durou uns dez anos, na transição do século XIX para o XX, quando escreveu "O homem invisível", "A máquina infernal do tempo", "Uma história dos tempos futuros”, miragens espantosas do que pudesse ser a vida, em seus des-dobramentos, assim mesmo, de desdobrar suas Dobras. E Rulfo, no México, Guimarães Rosa, no Brasil. Esses dois últimos, imensos Xamãs. Vocês notaram que eu não citei o mais esperado: Joyce. Não me explico porque, mas então cito: Joyce. Enfim, todos esses que foram gradualmente pegando o Desvio da Literatura para a Escritura, fosse através da progressiva ampliação do Imaginário em demanda de seus Deslimites, fosse através da progressiva desmontagem das cristalizações das palavras em frases mortas na Mesa de Dissecação de Lautréamont, fosse pela contaminação que introduziram com a inserção do hemisfério oriental na Literatura ocidental. Com esses contaminadores, ganhamos em Ausências, ou em Presenças apenas Pressentidas. E aí está Edmond Jabès lendo, no Livro, o Livro enquanto Vida, não é? Esses, ou quase todos eles, são precursores, consolidadores, e já ultrapassadores da própria Escritura. Mas eu falava de Andara ter estranhamente me eleito seu porta-voz de um Advento Infinito, infinitamente além, ou aquém, até mesmo da Escritura. Será que posso contar?


Azougue: Conta, conta.


VFC: Pois bem. Andara, o que ela parece mais querer, é o Advento de uma Literatura Fantasma. Fantasma como são os seres de Neblina que a percorrem. Mas ainda mais sutil que eles. Andara, os livros escritos, os livros visíveis de Andara, ainda pudessem ser lidos por quem assim quiser, ou não puder mais que isso, como Literatura Fantástica. Mas o “Livro Invisível de Andara”, aquele que não-é escrito, aquele que já é não-livro, esse: Isso, já é Literatura Fantasma. Literatura de Ausência. Está para a Literatura como os números trans-finitos de Georg Cantor, talvez eu pudesse comparar, que se iniciam ali, seja Onde isso for, onde os números finitos se acabam. Literatura Fantasma é Literatura de Ausência de Literatura. De Ausência até mesmo da Presença Rarefeita da Escritura, por mais rarefeita que ela seja. Está num além em nós. Nietzsche perguntando pela voz de Zaratustra: “O homem é coisa ultrapassável, o que fizeste para ultrapassar o homem, o que fizeste para atingir o Além do Homem?” Pois ele nunca falou em Super-Homem, isso foi manipulação do Nazismo: ‘über mensh’, ele disse, e isso é dizer: Além do Homem. Mas essa é uma visão ocidental, a visão ocidental de Nietzsche. Andara se desampara é no Tao. Andara quisesse fosse as Outras três partes do discurso que se mantém secretas, não são postas em movimento, mencionadas pelo Hino do Rig Veda, que diz que só conhecemos a quarta, que é a língua dos homens. Andara não busca nada assim, como neste trecho de Nietzsche, com um sentido único de Ida: Andara busca, no homem, tanto o ‘ umanoh’ quanto o ‘umano’, tanto o além quanto o aquém do homem. Mas eu queria terminar com Cervantes, depois de termos iniciarmos com Flaubert. Andara sou eu. De uma certa forma, sim. Mas há uma definição melhor de Andara por Cervantes. Está lá, na abertura daquele seu belo, sobrenaturalmente Belo, “Os trabalhos de Persiles e Sigismunda”, obra que comovidamente ele terminou em seu leito de morte, morrendo, embora em vez de Morte ou prefira a palavra Metamorfose, e escrevendo a última página e se despedindo do Leitor e informando que estava terminando naquele ponto o livro porque o Livro da sua vida estava, naquele exato momento, também fechando as suas páginas visíveis. Aquela Voz é Andara.Azougue: Qual voz?VFC: “Os trabalhos de Persiles e Sigismunda” começam com uma voz gritando do fundo da terra, se lançando para superfície da terra e para o alto e para a luz, lá encima, lá fora da Escuridão em que se encontra aquele que depois viremos a saber que era Persiles encerrado numa Masmorra no subsolo. Mas no início, só o que sabemos é que é uma Voz e, depois, ficamos sabendo que é voz humana. A Literatura é essa Voz que se lança do Escuro. Essa Voz que busca ascender da Escuridão é a Literatura buscando ascender para o claro-escuro da Escritura. É a Voz da Escritura querendo ascender para o Além do claro-escuro da Escritura. É também a vozinha débil dos livros visíveis de Escritura de Andara já querendo é o AlémAquém da Escritura, no Livro Invisível de Andara. Essa Voz é a Voz Não-Voz do Livro Invisível de Andara. Essa não-Voz, ela é que é a Voz não-voz essencial de Andara. E parece que a única que lhe interessa. Trans-silêncio. As páginas antes cobertas pelos Signos da Palavra buscando o em-branco da Ausência de Palavras.


Azougue: Então, Andara é isso. Essa não-Voz. Voz-Silêncio.


VFC: Sim. Mas estou tentando, ainda, salvar as Palavras da extinção total em Andara, pela Iconescritura. Superação talvez possível da Escritura, sem que seja necessário o extermínio das Palavras. É o que estou tentando agora no livro, ainda mais um livro visível, “O escuro da semente.” Devolver as Palavras à sua mais inocente Origem de Imagens. Quem sabe se possa ter nisso alguma Esperança? Enquanto isso, Andara? Andara continua sendo travessia de Penumbras. Escrita, é Diálogo com Sombras, já não-escrita é despedida das Sombras, que cada vez mais se ausentam, das Palavras.


Azougue: Paramos por aqui. Esperamos que você não tenha falado demais e dito coisas que não devia.


VFC: Eu também. Andara, ah.

Vicente Franz Cecim: andar, Andara, onde começa a viagem?



Ana Godoy









De um modo bastante estranho meus percursos de pesquisa se cruzam com a escritura de Vicente, por isso não foi sem um imenso prazer que percorri os livros visíveis de Andara, mas também não foi sem alguma hesitação que escrevi o texto que vou ler hoje. Hesitação não por não saber o que dizer, mas por desejar imensamente encontrar um tom que comportasse a suavidade e delicadeza de Vicente e a intensidade dos livros de Andara. Assim, inicio minha leitura dando voz a essa hesitação:

Um livro: para que serve?

Não pretendo nenhum ineditismo ao formular esta questão. Outros antes de mim a formularam, talvez até com maior grandeza ou beleza, mas por isso mesmo, porque se trata de grandeza e beleza - porque é disto que tratarei aqui -, que vale a pena re-colocar a questão para produzir outras ressonâncias, talvez, estas sim, inéditas. No entanto, não nos deixemos equivocar, pois se um livro nos serve não é por ser útil, mas por colocar em funcionamento alguma coisa - na medida em que ele mesmo funciona -, alguma coisa com a qual podemos fazer ou inventar alguma outra coisa.

Proust via aí a beleza e a grandeza de um livro: incitar o desejo, incitamento que arrasta consigo a exigência de uma leitura investida pelo desejo, uma leitura insubmissa ao texto, desprovida de apoios e certezas, uma leitura que experimenta e se experimenta, sem começo e nem fim. Penso que é neste sentido que um livro serve: quando desafia e provoca a leitura que, liberada em seu movimento, associa-se ao movimento da escrita relançando-a: “alguém vive, alguém escreve”, [1] alguém lê: escritura e leitura apresentam-se indissociáveis do movimento de expansão da vida em que o jogo ensejado na/pela linguagem não é um exemplo a ser transposto para a vida, mas sua expressão ou desdobramento: a própria vida dobrando-se sobre si mesma e inventando.

Assim, escritura e leitura arrastam o pensamento, experimentando-se em viagem, viagem que é multiplicidade de percursos à deriva da Razão, em que a cada desvio surgem sempre novos encadeamentos e o pensamento tomado pela vida e nela imerso, torna-se, em seu funcionamento, uma questão de experimentação: não se sabe de antemão aonde se vai chegar, tampouco quais encontros se darão pelo caminho.

“Onde começa? Onde termina?”

Resistindo as investidas do didatismo, sempre a nos ensinar a começar pelo começo e terminar pelo fim - numa sorte de castigo ao olhar ou à escuta que derivam -, pega-se o livro pelo meio que nesse movimento sussurra:

“Viagem a Andara.”

Tomados por uma “estranha inquietude” lançamo-nos à viagem e nesse movimento abandona-se o gosto por um certo contentamento, uma certa conservação que a razão propicia, em proveito da procura pelo “temível e problemático que é próprio de toda existência”. [2]

“Onde começa, onde termina?”

Talvez ali na floresta - labirinto, na voz que “afirma a intensidade de uma revolta”, que inventa uma outra fala na qual as palavras que escrevem a viagem se tornam a própria viagem e “os livros de Andara, miragens, pois Andara, a viagem ela mesma, nunca será escrita diretamente.”

Assim é que não se lê os livros de Andara sem se dispor ao risco, à viagem como risco, pois Andara não tem lugar, é o não-lugar inscrito no nomadismo das palavras, convite irrecusável a um outro modo de habitar que já não nos prenda a uma determinação de lugar, a uma origem ou fundamento. Leitura que exige abrir-se ao desassossego, destituindo o lugar das certezas, mas exige também experimentar e dispor do livro traçando percursos singulares e ao fazê-lo experimentar-se em viagem, viagem na qual nada está terminado, os territórios são instáveis e provisórios, mundo sempre inacabado, sempre por vir.

“Esta viagem fala da vida e não vai parar antes do fim”.

“Onde começa? Onde termina?”

E são sempre descaminhos, nos quais acaba-se embaraçado e atordoado. Porém, já assim o desconhecido nos afeta. Andara, silêncio cujo murmúrio não cessamos de ouvir. Silêncio que cala o mundo, silêncio que libera sons, imensidão sussurrante: o lado de fora de toda fala. Andara. Silêncio povoado ao qual se refere John Cage, mas também o silêncio referido por Le Clézio em Índio Branco – silêncio animal, vegetal, elementar [3] -, o qual exige uma outra escuta, pois a escritura errante é também aquela capaz de engendrar uma escuta nômade.

“Escutará também o que não é Andara?”

Silêncio que confronta disciplinas e gramaticalidades, os marcadores de poder, os conjuntos de leis. Silêncio ruidoso, que toca os limites do dizível, roendo as ordens de dentro, tornando-as ocas, liberando coisas desconhecidas, [3] impedindo tanto o domínio da sintaxe quanto a sintaxe como domínio. Seria esta a potência ativa do silêncio, pois, ao arruinar a prisão – na palavra, nos livros, no pensamento -, abre-os para novas enunciações, para devires outros.

Conjurar a vida no silêncio no qual pulsa o mundo implica abrir-se a ele, [4] já aí o habitar não se confunde mais com o recolhimento ou retraimento “na casa, na cidade, na comunidade reaquecedora da multidão”. [5] O habitar torna-se inseparável de uma experimentação de si a qual não se reduz mais ao estreitamento da proximidade, pois se faz onde o mundo está presente.

Assim percorre-se as muitas páginas escritas e não escritas.

Andara. Viagem-risco e experimentação, em que se vai ao encontro do Mundo. A questão, então, já não é o conhecimento investido, mas o desconhecimento conquistado, perdido e novamente conquistado, que nos põe diante do desconhecido, acessível à palavra apenas enquanto não for compreendido ou identificado, dispondo-nos ao surpreendente, ao imprevisível, ao ainda não dado à visão, mas que nem por isso é inexistente.

“Onde começa? Onde termina?”

Começa-se por aqui e por ali e já é sempre um re-começo e a cada vez um outro livro e um outro do livro, um não-livro a espreita, inesgotável, inexaurível, remetendo à invenção constante de uma atmosfera sempre mais rarefeita arrastando-nos para fora do domicílio habitual. Perde-se o chão sobre o qual a Razão se sustenta, mas também as telhas que mantêm-nos fechados para o mundo, ou mantêm o mundo velado, não para soçobrar, mas para reinventar-se nesta errância.

Não mais habitaremos da mesma forma, pois em viagem os percursos se multiplicam, dobrando-se um sobre os outros, e a cada livro, a cada leitura uma dobra e por toda parte “não se vê senão dobras, não se tateia senão dobras, não se habita senão elas.” [7] Uma outra ecologia talvez? E assim a cada re-começo já são outras e tantas linhas de errância, afirma-se uma força de desvio, [8] confronta-se “as tolices da racionalidade”, por meio das quais exalta-se a eficácia, a medida e a causalidade, trabalho de colonização, catequização e domesticação. Porém, algo de selvagem foge. Havia um labirinto ali.

“Onde começa? Onde termina?”

“E no labirinto deve-se dizer aos outros: sem um texto não há tempo.”

“E assim, há a maneira infinita de ler Andara” em que salta-se de uma coisa a outra para fazer uma dança, uma música, uma encantação. Sua potência vital é a mesma que, há séculos, despertou nos europeus, quando se aproximaram do estranho continente, “êxtase e aturdimento diante do inédito, da anarquia da flora, da umidade, do calor e do barulho ensurdecedor, da superabundância destruidora de toda a regularidade, labirinto da louca vegetação”. [9]

“E no labirinto deve-se dizer aos outros”:

os caminhos nunca se encerram, mas modificam-se ao cruzarem-se e bifurcarem-se, linhas sinuosas de uma estranha topologia, um labirinto que se transforma ao ser tomada esta ou aquela direção, mas no qual se está irremediavelmente perdido para o razoável, para o convencionalismo das divisões em regiões, para as classificações e hierarquias.

Havia um labirinto ali e havia e há esse gentio sem fé, sem lei e sem rei.

Lutava-se e ainda se luta contra o labirinto, a floresta, pois para o colonizador de ontem e de hoje, é preciso vencer o espaço habitado pela duplicidade, labirinto espacial ao qual nos arrastam catequizadores de todas as espécies. Ali onde a Razão pretende imperar, há sempre alguma coisa a domesticar, por vezes mais de uma quando se trata de domesticar o animal, ou almas para a cristandade, ou a floresta, desemaranhando-a para domar os percursos, domesticar o selvagem, como o fizeram Anchieta e Vieira. Todos os homens da fé e da razão se propõe à grande tarefa de vencer o labirinto.

No entanto, neste labirinto não há espelho: não nos vemos; pois não é preciso se ver na floresta, mas se saturar dela. Andara. Já não se trata de querer ser índio, voltar a uma cabeça primitiva, mas de associar-se às forças selvagens e liberar a vida, inventando outras combinações que não passem pela sujeição, tampouco pela dominação, e não reponham as hierarquias – melhor ainda: esconjurem todos os processos de sujeição.

“Os livros de Andara.”

“O que eles estão tramando?”

Traços, linhas partidas, cujos arranjos móveis e fugidios descrevem percursos em que a cabeça e a floresta encontram uma estranha semelhança, pois ambas não param de se inventar. A floresta deixa de ser um labirinto no qual nos perdemos, para se tornar um labirinto no qual se afirma a multiplicidade de percursos [10], em que se é sempre um clandestino, sem fé, sem lei, sem rei. Andara, viagem sem roteiro a deriva pela vida, pois é na deriva que a vida se inventa. Mas,

“Os livros de Andara.”

“O que eles estão tramando?”

“Onde começa? Onde termina?”

Uma multiplicidade de vozes se faz ouvir, mundo distendido em todas as direções. As contorções da natureza em seu impulso violento, primitivo e selvagem são aquelas dos corpos: a língua distendendo-se numa selvagem e ilimitada paisagem, selvagem e invisível paisagem furtando-nos ao mundo objetivo e a nós mesmos, pois o selvagem já não diz mais respeito a um lugar ou coisa, homem ou bicho, mas ao modo como cada um extrai os elementos com os quais constitui um mundo. É o sentir: um modo de habitar não só uma casa ou um território, mas também um gesto, uma cor, um som. Uma ecologia menor, uma outra ecologia. Andara.

Sem começo e sem fim.

É a viagem, os percursos por meio dos quais constituímos arranjos singulares pondo em relação os lugares, as coisas, abrindo-nos para a Terra, único limite à liberdade de invenção, pois “existem mil percursos que ainda não foram trilhados, mil saúdes e ilhas escondidas da vida. O homem e a terra dos homens continuam inesgotados e inexplorados” [11].

Toda uma outra política se põe em movimento: já não se trata de um olhar, escuta ou pensamento movidos ou agidos, e, portanto, coagidos e submetidos. Não há espelho nas paisagens invisíveis; desfigura-se o rosto, aniquilam-se identidades e referências. Uma outra política, pois já não se trata de um fechamento, o movimento da vida é o de expandir-se e reinventar-se, explorando o entorno e suas intensidades. Uma outra política, porque trata-se da invenção de possibilidades de vida, de modos de existência; de invenção e experimentação de si, um querer mais, aquém e além das alternativas pobres ou estéreis que se nos oferecem.

“Tu escreves um livro com tinta invisível. Por que fazes isso?”

Talvez porque a vida não cesse de inventar desvios que se fazem nos encontros aletórios, cujos percursos atravessam as rotas, embaralhando-as, produzindo outros sentidos. Experimenta-se, nesses e com esses arranjos transitórios, vidas intensas com suas pequenas mortes, cujo movimento abre-se ao ilimitado de outros e surpreendentes arranjos em que os percursos são como os rastros de um pássaro, com os quais inventa-se mundos nunca vistos, afirmando a força de uma deriva na qual corpo e pensamento transformam-se. Inventa-se uma terra que já não é e está em vias de se fazer, pois se tornamo-nos com o mundo, o fazemos sempre correndo o risco na invenção do mundo no qual nos tornamos, terra incógnita, nunca reconhecida e nem reconhecível. Andara.

NOTAS
1. Todas as citações entre aspas sem nota de referência correspondem a trechos dos livros visíveis de Andara e a excertos de entrevistas dadas por Vicente Franz Cecim ao longo dos anos.
2. F. Nietzsche em Humano, Demasiado humano, § 7, p. 128 (Obras Incompletas).
3. Cf. J.M.G. Le Clézio em Índio Branco, pp. 30-31.
4. Le Clézio em Índio Branco (Haï), p. 54.
5. Nietszche em Assim Falou Zaratustra
6. Eugen Fink em A filosofia de Nietzsche, p. 100.
7. Michel Serres em Atlas.
8. Gilles Deleuze e Félix Guattari em Mil Platôs, vol. IV, p.117. No v. V de Mil Platôs, p.57 os autores referem-se explicitamente a uma força de desvio, “como uma cunha que se introduz” pois o espaço liso ou nômade situa-se entre dois espaços estriados.
9. A este respeito cf. Carlos de Mello-Leitão em Histórias das Expedições científicas no Brasil e Camilo Loureiro Bento em ...das verdadeiras e legítimas causas do clima e seus effeitos, respectivamente pp. 24-25.
10. Gilles Deleuze em Crítica e Clínica, p. 121; v. também Gilles Deleuze e Félix Guattari em Mil Platôs, v. III, pp. 60-1. Umberto Eco destaca três tipos de labirinto: o grego, labirinto clássico – tão-somente o fio de Ariadne -; o maneirista, diferenciado do grego por ter muitos becos sem saída, mas a ele se assemelha por também ter apenas uma saída; enfim, o rizoma, labirinto-rede em que cada caminho pode se ligar com qualquer outro, de maneira que o labirinto já não possui centro e periferia, tampouco saída, porque ele é potencialmente infinito. O labirinto constituído pelo rizoma já é processo, e não apenas distribuição espacial. Como diz Borges em “O jardim dos caminhos que se bifurcam”, um labirinto de labirintos... Cf. Umberto Eco em Pós-escrito a O Nome da Rosa, pp. 46-7.
11. Fiedrich Nietzsche em “Da virtude dadivosa” (2), in Assim falou Zaratustra, p. 104.


Ana Godoy (Brasil, 1960). Doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP. Seu livro A menor das ecologias, uma experimentação nas fronteiras entre arte e ecologia, permanece inédito. Conferência apresentada no evento Vozes poéticas: semeaduras, em homenagem a Vicente Franz Cecim, PUC-SP, abril/2005. Contato: anadgp@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Nicolau Saião (Portugal).

ENTREVISTA Vicente Franz Cecim: Vento de Vento


Por Rita de Cássia



















Rita de Cássia
Como é o seu processo de criação? Que grau de consciência e inconsciência existe nele?



Vicente Franz Cecim: Consciência e inconsciência são camadas de uma coisa só – nuances do Ser se manifestando no Ente. – Oh, não voltemos a falar do umanoH, fiquemos só nestes limites. – Então, se eu sou o Criador, então eu estou provavelmente todo o tempo consciente. Mas se eu for somente o Instrumento para que uma criação se realize através de mim, então eu deveria estar em transe, ou inconsciente — não parece razoável ver as coisas assim? Mas no meu caso é um Transe em que inconsciente e consciente se enlaçam, se tornam uma coisa só. E eu me torno essa coisa só, toda unida a si mesma. Parece um estado xamânico – você não quer ler a descrição que Mircea Eliade — o amigo de Cioran — faz disso? Estou em mim, e não estou. Estou Lá, mas é uma Lá que é Aqui, e vice-versa. Posso começar um livro de Andara – ou melhor: deixar que ele se comece em mim – por uma frase, uma imagem, um sentimento, uma percepção lampejante, enfim, por coisas que me chamam de dentro de mim ou de fora de mim. Às vezes começo um livro pelo fim, outras pelo começo, outras por coisas que estão no meio, no transcurso por onde os olhos do leitor irá passar, transcurso esse que eu ainda nem sei qual seja, não sei. Eu me entrego, eu sou levado. Mas, o curioso: eu sou levado como se O Que me leva soubesse do que eu preciso, o que eu, enquanto homem, busco. – O umanoH? – Psiu, silêncio. — Então é um estado excepcional que me acolhe com absoluta cumplicidade. Nem sempre. Às vezes me nega, renega. Devo ter paciência: saber que eu sou menos e que ele: Ele, esse estado Obscuro-Translúcido, é sempre Mais. Seria esse o Estado Lírico de um criador?



Rita de Cácia:
Você gosta de poesia? Que tipo de poesia?



Vicente Franz Cecim: Uns escrevem uma coisa no formato de um poema e pensam que fizeram poesia. Não é isso. Poesia não tem Forma, e se tiver, não uma forma pré-definida. Toda forma é pré-definida? Uma coisa chamada Poesia nasce com a gente, e está em tudo o que vive e morre em nós e diante de nós. Poesia. Parece um sonhar mais profundo dentro do Sonho de Já Sermos. Vallejo, Rimbaud, Lautréamont, Hoelderlin, Novalis, Pessoa, Whitman, Saint-John Perse, Eliot, Rilke, Emily Dickinson. Nomes remotos. Há outros.



Rita de Cácia:
Você escreve prosa ou poesia? Penso que sua prosa seja prosa poética. Há acerto nisso?



Vicente Franz Cecim: Não. Nem prosa nem poesia e ainda menos prosa poética – que não sei nem o que é, e me parece mais uma facilidade para explicar uma coisa que não se sabe como explicar ou definir. Feliz ou infelizmente, é assim. Fugindo dos gêneros, me achei sozinho em um, digamos: Universo Verbal que tudo permite e torna possível. Comecei fazendo ainda a Literatura, mas, asfixiado, passei a fazer puramente Escritura, livremente, e quando as palavras se tornaram rarefeitas e não queria dizer mais quase nada, cheguei a uma forma de expressão que chamei de Iconescritura – os últimos livros visíveis de Andara foram criados assim, como iconescrituras: K O escuro da semente (Ver O Verso, Portugal, 2005) e os inéditos Breve é a febre da terra e também óÓ: Desnutrir a pedra. Tive de retornar à antes da invenção do Alfabeto pelos Fenícios, cerca de 6 mil anos, para reencontrar a Imagem em estado puro, as matrizes da futura Palavra escrita.



Rita de Cácia:
Para ler suas narrativas é preciso um certo grau de conhecimento filosófico, um conhecimento da vida, uma certa visão da Amazônia, enfim, um conjunto de conhecimentos, o que, em geral, os jovens ainda não têm. De que forma você pode contribuir para a formação de leitores?



Vicente Franz Cecim: Eu não gostaria de formar leitores, nem de formar pessoas de um modo geral: cada um seja o seu Ser Original e estará devidamente formado por si mesmo. Assim, aponto vagamente caminhos, somente, esboços, sem muito peso e densidade — como aquele dedo que aponta a Lua Zen, de Dögen. Alguns olharão para o dedo que aponta, outros para a Lua no céu — muitos poucos sentirão a Vertigem, perceberão o fantasma: — Ver a Lua refletida numa gota de orvalho.



Rita de Cácia:
Qual o caminho capaz de facilitar os jovens a terem acesso ao trabalho literário?



Vicente Franz Cecim: Dêem a eles livros para ler, muitos livros, livros à vontade – estimulem a convivência deles com os livros: que durmam abraçados com os livros em suas camas, redes, ninhos, que aprendem a conversar com um livro como a pessoa que o livro, realmente, é, a pessoa que ele, livro, sustenta e traz em si, e que é mais do que um autor, só um nome: deixem que saiam para passear e conversar um dia com uma pessoa chamada Schopenhauer, uma tarde com outra chamada Plotino, certa noite com outra chamada Rumi, que conversem com esses homens – homens e mulheres que são os seus livros – e não pensem mais que um livro é somente um livro, um objeto, um objeto-livro, porque a verdade é que todo Livro que merece ser lido é, tem e contém a vida de quem o escreveu. Nessa Convivência, se abrem os Caminhos. E se aprende qual livro é uma má ou uma boa companhia.



Rita de Cácia:
Como levar os jovens a refletir, ‘sem apenas ler as letrinhas’, uma vez que, a mídia os leva para uma formação medíocre? Quais eram suas leituras na adolescência?



Vicente Franz Cecim: A mídia moderna é um veneno, mortal para os Sentidos, a televisão é a morte dos olhos, a imprensa é uma surda mensageira de mensagens convenientes para os que estão no poder – e o Poder é podre, não pode ser outra coisa, acaba aprisionando e roubando a liberdade daquele mesmo que o exerce — baste ler Shakespeare — como poderá libertar os outros? Em vez do poder: generosidade, em vez da ordem: a cumplicidade. Minha mãe tinha uma pequena biblioteca em casa, li tudo, por volta dos meus treze a quatorze e quinze anos. Lia por ler, pelo sabor de ler – e ia entendendo que ler é viagem, e viajava, lendo tudo. Descobri a literatura de ficção científica, ou chamada de antecipação, a de mistérios, a de aventuras. Lembro um ano em que li todo aquele que me pareceu infindavelmente longo Ivanhoé, de Walter Scoth, durante um mês inteiro, de férias. Mas lembro bem mais quando e qual foi o primeiro escritor que realmente foi para mim um Criador e que amei instantaneamente e ainda amo: Knut Hansum, o dinamarquês. Seu livro mais famoso é Os frutos da terra, deram a ele o prêmio Nobel, mas depois da Segunda Guerra o internaram num hospício, por ressentimentos: nesse hospício, muito lúcido, ele escreveu suas últimas e algumas das melhores obras. Se foi de estar aqui por volta dos 90 anos. Troquei o dinheiro que tinha para uma passagem de ônibus pelo Hansum, com um sapateiro que vendia livros usados. E fui para casa a pé, andando nas nuvens.



Rita de Cácia
Você é considerado pela crítica um escritor universal, o que apresenta todos os gêneros. Ratifico essa que aborda desde o processo cíclico da vida, até uma literatura onírica, e tudo isso se escriturando de uma maneira altamente sensível, o que explica a citação de Jakobson “Essas palavras são ditas com espontaneidade, palavras translúcidas; é um arrebatamento da alma” corroborando com a citação do escritor Emil Staiger que afirma: “O lírico, na forma adjetiva, é visto como um estado de alma, uma disposição sentimental, exprimido por meio de palavras, (...) aparentemente sem nexo lógico”. É uma das marcas que me levaram a caracterizar O sereno uma narrativa lírica. O que você pensa a respeito de enquadrar sua obra O sereno na forma do gênero lírico?



Vicente Franz Cecim: Não, evitemos isso: cuidado com as palavras: a palavra enquadrar é uma antipalavra: a Palavra que vale não se enquadra, ela é Vento de Vento, como diz Coélet no Eclesiastes, se bem traduzido: sim, mas a Palavra que realmente nos fala também é o Verbo gerador: ele abre, amplia, cria – não reduz – não enquadra. Então, não vamos fazer isso com um livro que foi todo sonhado, este O sereno, que transbordou de si mesmo e se lançou para além de todas as margens. Embora se passe, ele todo, numa única noite, numa margem, numa praia, diante da Água primordial. Não me desagrada que O sereno seja lido como um livro lírico, não me incomoda que nenhum dos livros de Andara sejam lidos também assim. Concordo com a frase citada de Jakobson. Me vejo imerso nela. Mas não sei se Andara se resume a ser lida como literatura lírica. Somente na hipótese de se vincular o Lírico ao Sublime. O Sublime, como o: Absolutamente Sem Fronteiras discerníveis. A citação acima que diz “aparentemente sem nexo lógico” é engraçada. Ela parece querer se desculpar, em nome do lirismo, por ele não mostrar um nexo lógico explícito. Não sei. Atualmente — se querendo ainda falar em Lógica mantendo o mesmo espírito de transcendência do que restou do Logos grego, do Logos como uma Manifestação do Sagrado, e no sentido do Uno de Plotino — acho que se deveria falar da lógica íntima do Caos, que nos gerou e que ainda nos é a Grande Desconhecida, porque Dela temos muito Medo – esse Kaos criador que contém um subsolo e um Centro, não-superficial, e que não se submete a uma mera ordenação superficial pelo temor humano – veja o dístico positivista Ordem e Progresso, que persiste, mas não se realiza, em nossa bandeira. O Caos originário criador, seja ele algo realmente centrado em si, em Sua Imanência, e todos os nexos possíveis entre as coisas manifestas, as Visíveis, deverão ser percebidos nascendo dele. Mas só quando não o temermos mais. Quando entendermos e aceitarmos o quanto de Invisível contém o Visível.




Rita de Cácia
Um aparte, ou melhor, uma audácia. Você se considera um ser solitário?


Vicente Franz Cecim: Sim, um Solitário. De uma certa maneira nós todos somos. As ligações, as relações que se estabelecem por fora, no Exterior, são insuficientes para serem aceitas como O suficiente, pelo Ser. Mas já falamos disso: no fundo da Originalidade de cada um de nós, é onde nos encontramos, e cessam todas as solidões individuais. Imagino a Alegria transbordante de um encontro entre aqueles que não eu quis separar: Kafka, Beckett, Gombrowicz, Rulfo, Guimarães Rosa, Bruno Schulz, Giono, Cervantes, Swift – uma Alegria comum a todos, pois, todos, unidos por suas originalidades pessoais.



Rita de Cácia
Você parece ter um corpo e duas almas. Você sugou a alma de alguém?



Vicente Franz Cecim: Um corpo e duas almas? Isso é interessante. Eu diria que uma delas é realmente a Alma, e a outra o Corpo, mas um corpo que se quer também Alma.



Rita de Cácia
Suas narrativas podem ser comparadas às peças de piano tocadas a quatro mãos, sem perder, claro, a unicidade e a harmonia. Como o homem Vicente Franz Cecim domina o escritor para que o processo artístico vingue dessa forma tão singular e espontânea?



Vicente Franz Cecim: O xamã se manifesta no homem, e, então, tudo se revela em Sonhos e tudo é vivido como o Sonho que no fundo é? Exercito normalmente essa espontaneidade em tudo, através dos dias mais comuns da minha vida. As palavras chaves aqui, são: Sinceridade e Inocência. Fora disso, o contra-fluxo é brutal. Parece uma vertigem invisível.



Rita de Cácia
A escritora e professora de literatura Walkyria das Mercês diz que sua prosa é um poema lírico esparramado.O que você pode dizer a respeito desse parecer?



Vicente Franz Cecim: Pode ser, assim pode ser: não prosa poética, mas “prosa que é um poema lírico todo de si derramado”. Ou como se diz em Andara: - O Vazio que transborda.



Rita de Cácia
Às vezes, Vicente Franz Cecim mostra-se personagem de si mesmo. Um ser transfigurado em arte. Até os seus dedos já se ampliaram e compõem com o cigarro uma outra forma de mão. Há limites entre homem e escritor? Penso que não.



Vicente Franz Cecim: Há uma distância imensa que vai da pata à mão humana. Mas para quê? Grande ato falho do homem consigo mesmo, isso de fumar. Comecei sem querer, e agora, por querer, parei. Estava morrendo para a morte. Agora vivo para a vida. Sartre, em O Ser e o Nada, diz que fumar é sublimar a vida. Pode ser, poeticamente, até ontologicamente, quem sabe, sim. Mas esse sublimar a vida, queimando, reduzindo a cinzas – o que é? Essa Negação? Será essa necessariamente a via por onde se atingirá o Sublime? Pela Dor? O Sublime não é um devaneio, é o mais alto grau da responsabilidade humana. É o que Busca o humano. Mesmo através das cinzas, tem que ser tocado, atravessando a Espessura da existência manifesta, a Visível. O homem se salva de dois modos: ou no mais Comum, ou no Sublime. Não vejo outra saída, ou outra Realidade no Sonho de Sermos.



Rita de Cácia
Fim.



Vicente Franz Cecim: Poderia ser um Fim, sim. Mas ainda não. Nesta re-visão, agora eu balbucio este adendo e prefiro terminar num começo: de algo um tanto surpreendente, que me cabe tão claramente o quanto ainda não O Sei. Estranhos rumores, coisas se movem. Talvez não devamos mais continuar nos distraindo com fantasmagorias como o Homem, o Ente, o Ser, o Não-Ser. Comecei a suspeitar disso desde que através de Andara me ocorreu a hipótese-clarão do que veio se apresentar como — o Humano — na linguagem de Andara, chamo a isso de: o umanoH — que é o que cria e é e não-é Tudo isso. E o Nada de que todo esse Isso é feito. Concebido. Engendrado. Pense tentando resistir à Vertigem: — É esse umanoH que, sem conflito algum, concebe as realidades de Homem, de Ente, de Ser e Não-Ser. Nenhuma dessas realidades consegue conceber inteiramente o Humano – ou o Andara umanoh – sem conflito com as outras. A progressão, ou regressão, homem-ente-ser parece ser sempre implicadamente ex-cludente. E quanto ao ser ou não-ser? O primeiro cogita o segundo, que o ignora inteiramente. Mas o Humano – o umanoh – inclui os dois – como se fossem Um ou Nenhum. Tanto fez, tanto faz. — Que extraordinária libertação nos vem desse entendimento umanoH. Dele, eu digo como o omem de areia no mais recente livro visível de Andara: - O Mel é beber a vida em sonhos.

16 de junho de 2009

Márcia Tiburi na Casa das Musas











ENTREVISTA


Lívio Oliveira: O que diferencia, essencialmente, a filosofia da literatura?



Márcia Tiburi: T. São dois campos tão próximos e tão distantes que falar de uma diferença pode ser complicado. A diferença é que a filosofia não precisa ser escrita, que ela é evento, é acontecimento. É mais essencial que falemos de filosofia entre nós, do que escrevamos sobre ela. A literatura, por sua vez, é escritura, depende da escrita e se faz por meio dela. A rigor, um filósofo não precisaria escrever nada desde que ele possa realizar seu trabalho de pensamento na comunidade com a qual dialoga.



L.O. Por que a afirmação de que a filosofia acadêmica é hoje "um cadáver"?



M. T. Usei esta metáfora para causar atenção. Referia-me ao fato de que certas coisas morrem, neste sentido, que a história da filosofia que se tenta, no mundo acadêmico, fazer passar pela filosofia como um todo. Esta é uma idéia que perdeu seu sentido, pois não estamos mais no período da ditadura em que filósofos se escondiam do regime e preservavam a filosofia dizendo que estavam só estudando história do pensamento, colocando assim a filosofia num lugar inerte e não perigoso. Mas, se é um cadáver em nossas mãos, também devemos dissecá-lo para entender sua anatomia.



L.O. Você se considera uma filósofa "pop"? Isso lhe incomodaria ou lhe seria útil?



M. T. Realmente não penso nestes termos. Mas acho engraçado, enquanto nem me agrada nem me desagrada. Acho que para o papa ser pop foi bom. Talvez para mim, ou para quem gosta de filosofia, também seja. Que a filosofia como tal se torne pop, creio que é ótimo. Torna o gesto crítico do pensamento, que é a filosofia, algo mais democrático. Sendo uma professora de universidade como sou, espero que isto também seja divertido para meus alunos, quem partilha comigo a filosofia mais de perto.



L.O. Como você convive (e que disciplina você trabalha) com as múltiplas facetas do seu labor criativo e intelectual: a Filosofia, as letras, a televisão, além da mídia eletrônica e escrita em geral?



M. T. Não sei explicar isso. Eu sou uma pessoa hiperativa. Escrevo, leio, invento coisas o dia inteiro, o tempo todo. Talvez eu devesse responder a você como convivo com o não fazer nada. Mas como isto só me acontece raramente, fico sem entender como seria exatamente.



L.O. O silêncio é essencial?



M. T. Claro. É o que eu mais ouço.



L.O. A música ainda "toca"?



M. T. Raramente ouço alguma música diferente do som de meu marido ao violão. Quem vive perto de músicos acaba mais ouvindo ensaios e as músicas deles do que músicas em geral. Mas eu, em geral, não tenho tempo para ouvir música, assim como não tenho para ver Tv. O meu mundo é feito de livros.



L.O. O que vale mais: a ética ou a estética?



M. T. Toda ética tem uma estética, toda estética tem um ética.



L.O. Quais são suas principais referências intelectuais?



M. T. Não sei mais. Eu leio de tudo. Talvez o fato de que tenha estudado por dez anos a teoria da escola de Frankfurt, da teoria crítica, seja uma referência essencial. Mas gosto demais de Aristóteles, Nietzsche, Kant, Schopenhauer e de tudo o que se faz na filosofia contemporânea que é sempre o foco dos meus interesses.



L.O. Quais são suas preferências atuais de leitura? No Brasil, no mundo...



M. T. Leio coisas demais. Mas se pudesse passaria a vida lendo Melville, Gombrowicz, Lobo Antunes, Osman Lins, Borges, na literatura. Na filosofia leria de novo o que eu já li. Gosto muito hoje de um filósofo italiano chamado Giorgio Agamben.



L.O. Que valor possuem as "feiras" ou "festas" literárias, como a FLIP?



M. T. Acho todas uma maravilha. Divulgam livros e leitura. Tornam a literatura algo festivo e desejável. L.O. É possível, afinal, filosofar em português?


M. T. Em qualquer língua! Onde há linguagem (mesmo a das artes), aliás, é possível realizar o trabalho do conceito. A língua, por sua vez, providencia a condição do diálogo.



L.O. O centro geográfico (ou econômico) pode definir qualidade de escrita e escritores?



M. T. Não creio. Literatura depende de desejo e disciplina. Se não temos mais grandes escritores é porque não aparecem pessoas que queiram e trabalhem para construir uma grande literatura. No Pará, por exemplo, em Belém, há um dos maiores escritores brasileiros, que é o Vicente Franz Cecim. Ele não está no centro geográfico (aliás, onde fica?).





L.O. Qual é o lugar da literatura em sua vida?



M. T. A minha vida está situada na tensão entre a filosofia e a literatura.



L.O. A palavra move ou só comove?



M. T. Move, comove e é movida por nós. Fazemos com ela uma dupla banda.



L.O. Como definiria "consistência" no ato de criar, de escrever?


M. T. Escrever muito e sustentar o que se escreve.



L.O. O que lhe causa estranhamentos no Brasil atual? O que lhe incomoda?



M. T. A falta de atenção aos problemas e de respeito. A covardia dos poderosos também.



L.O. Como saber/conhecer sem nutrir culpa, num país como o nosso?



M. T. Culpado é quem não sabe/conhece.



L.O. Como a televisão poderia melhor atuar na formação cultural de um povo?



M. T. Tomem o poder. Façam a sua televisão. Não vejam o que não devem. Não vejam, se for preciso. Mas assumam o que fazem. Claro que projetos educacionais e culturais envolvendo a televisão são ótimos. Creio que eles existem cada vez mais até porque a televisão está cada vez mais ampla. A hegemonia tem seus dias contados.



L.O. Qual é o verdadeiro papel do escritor?



M. T. Verdadeiro? Escrever o que ele quiser e achar que deve.



L.O. O que o escritor busca "inscrever" no tempo?



M. T. Não faço idéia. Cada um deve ter uma vontade diferente.



L.O. Quais são as suas buscas, as suas metas essenciais na vida?



M. T. Viver em nome da minha liberdade possível, ter paz de espírito, fazer o que devo com as bandeiras que carrego.


Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes, mestre e doutora em filosofia. Publicou livros de filosofia, entre eles a antologia “As Mulheres e a Filosofia” (Editora Unisinos, 2002), “O Corpo Torturado” (Escritos, 2004), “Uma outra história da razão” (Ed. Unisinos, 2003), “Diálogo sobre o Corpo” (Escritos, 2004), “Filosofia Cinza - a melancolia e o corpo nas dobras da escrita” (Escritos, 2004). Em 2005 publicou “Metamorfoses do Conceito” (ed. UFRGS) e o primeiro romance da série Trilogia Íntima, “Magnólia”, que foi finalista do Jabuti em 2006. Em 2006 lançou o segundo volume “A Mulher de Costas” e, “Filosofia em Comum”, em 2008. É professora do programa de pós-graduação em Arte, Educação e História da Cultura da Universidade Mackenzie, do curso de formação de escritores da Academia Internacional de Cinema, colunista das revistas Cult e Vida Simples, e participante do programa Saia Justa, do canal GNT.