12 de abril de 2011

VICENTE FRANZ CECIM, UMA VOZ DA AMAZÔNIA









“A FLORESTA VIVE EM MIM”

De Rebecca Hudson, Berlim




No início de novembro o escritor e cineasta Vicente Franz Cecim (Belém, 1946)
visitou Berlim para abrir uma série de palestras sobre “Amazônia – culturas e
sociedades em contexto transregional” no Centro de Pesquisas Brasileiras do Instituto
de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Berlim. Durante sua visita,
Cecim também mostrou três filmes de curta-metragem na Embaixada do Brasil. Nesta
ocasião, concedeu uma entrevista à Professora Ligia Chiappini, ao Dr. Georg Wink, da
Universidade Livre, e à doutoranda Rebecca Hudson da mesma Universidade, durante a
qual falou da sua paixão pela natureza da sua região
natal, que ele vê ameaçada pela
“violência do homem”. A entrevista deixou claro que o debate sobre “civilização” e
“barbárie” ainda é atualíssimo no Brasil – e que o assim chamado progresso não é
necessariamente o melhor caminho para a Amazônia. 1


A percepção de Vicente Cecim está baseada no seu “sentimento místico” – o que
ele distingue claramente da religião em si – e na sua relação íntima com a natureza, o
que o fazem procurar quase obsessivamente “o invisível” na vida. Diz: “Para mim, o
visível é o modo como o invisível se veste para se esconder da gente. Vejo a natureza
como manifestação do invisível, como roupa verdadeira. Qual é a roupa falsa? É a que
passa pelas distorções da mente do homem e a que eu chamo de „civilização..” Porém,
afirma que a natureza também se esconde dos seres humanos e há que procurar a
verdade nela. Cecim diz: “Eu olho paraa Amazônia e digo: “Tu és a manifestação de
alguma coisa que não é o que estás manifestando.. Este “jogo de esconde-esconde” com
o visível/invisível é sempre fascinante para Cecim, que considera a natureza como sua
“matéria primária”. Ele afirma que “a natureza começa no metafísico e chega a mostrar-
se mais tarde no físico”. Para ele, “há mais confiança no que o homem não fez.” Cecim
tampouco vê uma diferença entre ele mesmo e a natureza: “Eu me vejo como algo da
Amazônia. Acho que sou manifestação da natureza.” Falando sobre sua relação íntima
com a região natal, Cecim disse que olha para a Amazônia como para seu neto de dois
anos, Rafael, porque “os dois têm uma autenticidade, inocência, beleza, graça e devem
ser amados, preservados e protegidos”.




Para Cecim, o invisível também
se encontra no livro que ele não
escreveu, ou seja, o livro mais
importante para o autor, que apenas
tem título, “Viagem a Andara oO
livro invisível”. “Os outros livros meus
não têm importância.” Cecim é um autor que é
muito consciente da transitoriedade
da vida e do mundo: – “Um dia a Amazônia
vai acabar. Tudo vai acabar.
De qualquer forma ficará o livro
que nunca escrevi, justamente
porque não chegou a existir.”
Contudo, isso não é uma visão
apocalíptica, já que ele vê
tudo “como uma continuidade”
e percebe “as coisas como gradação”, sumamente entrelaçadas.



Como este Weltanschauung se expressa na produção de literatura e de filmes de
Cecim? O autor usa o exemplo de uma criança que cria um mundo novo e próprio com
pedras, madeiras e galhos da árvore para explicar como ele mesmo vê a produção da
literatura. “Tomar coisas e criar um mundo como uma criança o faz – isso é a literatura.
Pode criar realidades, pode deixar acontecer as coisas que prefere. Pode interferir nelas.
Não pode transformar a Floresta Amazônica, mas pode criar uma versão da realidade e
da vida, que seja mais reveladora e libertadora para o ser humano. A literatura é um
instrumento. Eu sou instrumento da literatura para que a vida me use como tal para falar
literariamente.” Para Cecim, “fazer filmes ou escrever livros é compartilhar”.


O invisível também está no desconhecido e por isso, Cecim considera a vida
como uma busca de conhecimento, por exemplo na filosofia e na ciência, assinalando
que “o homem praticamente não se conhece”. Ao mesmo tempo, avisa que “enriquecer-
se culturalmente pode significar empobrecer-se espiritualmente”. No “Manifesto Curau”
(1983), um apelo à insurreição na Amazônia, o autor se posiciona abertamente contra a
tradição literária do Ocidente. Contudo, seu pensamento, sua obra literária e os seus
filmes mostram muitas influências das suas leituras profundas da filosofia, da arte e da
literatura do Ocidente – de Paracelso, Kafka, Plotino e Berkeley, para mencionar só
alguns exemplos – mas o autor também assinala que a “questão da oralidade é
fundamental”. Explica que ele não precisa saber os nomes das árvores e das aves da
floresta para apreciar sua existência e essência e que neste sentido, ele desconfia da
cultura e do conhecimento, ou melhor, da cultura do conhecimento, como acúmulo de
informações, preferindo a sabedoria de quem está mais próximo à natureza.. O medo do
autor é assim de perder o contato com o mundo espiritual e natural. Ele quer manter “o
olhar virgem”. No tratamento que ele dá às tradições orais e à literatura ocidental, Ligia
Chiappini vê uma operação antropofágica, pela qual ele injeta um “contraveneno” no
veneno imposto pelo colonizador, para usar a expressão do grande crítico literário
brasileiro, Antonio Candido. Para Cecim, no entanto, trata-se mais de “jejum”, o que
pode se traduzir como uma espécie de dieta de civilização, ou escolha de alguns pontos
positivos nela.


Cecim realizou uma série de filmes, KinemAndara, nos anos 1970, antes de
dedicar-se à literatura. Voltou a fazer filmes só em 2007– quando realizou com o filho
Bruno Cecim o curta-metragem‚ Marrá Yaí Makuma/Aquele que dorme sem sono“,
disponível no You Tube - após quase 30 anos. Ele explicou a conexão entre seus
métodos de trabalho nestes dois gêneros: “Pego a câmera e escrevo.” Seja com a
câmera, seja com uma caneta, Cecim sempre procura o invisível. Diria:
"Pego a caneta e olho." Um aforismo de Franz Kafka, citado pelo cineasta,
no seu filme “A Lua é o Sol” (2009), nos mostra como podemos olhar
o mundo como o próprio cineasta. Kafka escreveu: “Por impaciência
perdemos o paraíso. Por impaciência não voltamos a ele.”2
Com esse mote, Cecim anima o espectador a entregar-se à lentidão,
a olhar as imagens de modo contemplativo para ver a vida e a ação dentro delas.
Neste sentido, os filmes são uma “recusa à civilização”. Em cenas da vida
cotidiana em Belém gravadas de uma única posição da
câmera, vemos, por exemplo, com seus sons naturais, como o movimento
começa e desenvolve numa rua após a chuva da tarde na cidade. Ouve-se
a música de Bach. Cecim mostra como o cotidiano é sagrado.



O escritor e cineasta também comentou a situação após as eleições no Brasil em
geral e na Amazônia em particular, onde Dilma Rousseff, do partido dos trabalhadores
(PT) ganhou a presidência do País. Explica essa vitória aos europeus em grande parte com a
popularidade do seu predecessor, dizendo que a população mais pobre do Nordeste e da
Amazônia se identifica com Lula, porque ele está mais próximo a ela nos seus valores
do que o candidato presidencial tucano, José Serra.


Cecim acredita que no “menos melhor para tudo”. Assim quer que os seres
humanos deixem a Amazônia em paz: “quanto menos humano, melhor.” Critica o
egoísmo dos homens de negócio e a tendência da humanidade a empregar violência em
vez de praticar a integridade, a compaixão, solidariedade e tolerância.
Na “civilização”, o homem se afasta da totalidade da existência.
Sempre querendo mais, “o grande problema do homem é que não se entrega,
no sentido que um pássaro se entrega a voar, uma criança
se entrega ao seu nascimento, como uma pedra se entrega ao sol.”


Falando sobre suas impressões de Berlim, que visitava pela primeira vez, Cecim
comentou o grande número de árvores e a presença inegável da natureza na capital
alemã, dizendo que se sente em casa onde há natureza. O morador de Belém afirma:
“A floresta vive em mim!” Na sua visita breve na Europa, Cecim também viajou a Praga
para ver a cidade (e as casas) de Franz Kafka.


E filmou seu encontro com Kafka no cemitério judeu de Praga e sua subida ao castelo.



- “A impressão do encontro com Kafka foi tão profunda que as únicas palavras
possíveis são: - Não há palavas.“



1 Cópia em áudio da entrevista completa ficará depositada na Mediateca do LAI.

2 A citação inteira diz: “Es gibt zwei menschliche Hauptsünden, aus welchen sich alle andern ableiten:
Ungeduld und Lässigkeit. Wegen der Ungeduld sind sie aus dem Paradiese vertrieben worden, wegen der
Lässigkeit kehren sie nicht zurück. Vielleicht aber gibt es nur eine Hauptsünde: die Ungeduld. Wegen der
Ungeduld sind sie vertrieben worden, wegen der Ungeduld kehren sie nicht zurück.“ KAFKA, Franz.
„Die Zürauer Aphorismen. Betrachtungen über Sünde, Leid, Hoffnung und den wahren Weg.“





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